Claudia Tajes: Nunca conheci um Joesley

Foto: Carl Barks, Walt Disney, reprodução
Foto: Carl Barks, Walt Disney, reprodução

Nunca conheci um triliardário, desses que têm mansões em vários lugares do mundo e que passam a vida sorrindo para fotos em eventos sociais. Nunca sequer vi um magnata de perto. Já trabalhei para grandes empresários e até convivo com pessoas que estão bem de vida, bem mesmo, mas ninguém é assim um Eike Batista nos seus bons dias. Ou um Joesley Batista – sobrenome, fortuna e (mau) caráter em comum.

Por andar tão longe desse universo dos muito ricos, meus desejos são prosaicos: ganhar dinheiro o bastante para não sofrer com as contas que não param de chegar e fazer coisas banais como viajar e ter isso ou aquilo sem maiores ginásticas. Quitar os empréstimos todos, um a um. Financiar meu próprio filme, vá lá. Dar uma turbinada no bolso de alguns que estão precisando de um alento. Entre amigos e conhecidos, os desejos são mais ou menos os mesmos. Comprar uma casa. Trocar de casa. Entrar em uma livraria, ou uma loja, ou onde for, e não se preocupar com o cartão de crédito. Não depender da Previdência do, desculpe a palavra, Temer.

Pensamentos pobres, enfim.

O que todo mundo tem em comum é a vontade de deixar para os filhos uma situação financeira melhor. Dentro dessa ideia tão simplória, a síndrome da roubalheira que acomete políticos e empresários fica ainda mais difícil de entender. Os caras já roubaram tanto que seus descendentes não precisam ser apresentados ao vocábulo “trabalho” por muitas gerações. Se tiver ditado na aula e a professora mandar escrever “trabalho”, periga o filho do Joesley escrever “trabalio”. Não por burrice, é que não é do universo do menino. Se é assim, por que essa gente continua roubando depois que o futuro de seus herdeiros já está mais do que garantido?

Eu disse que o meu pensamento era pobre.

Lembro do pai de um colega que se chamava Afanázio, um senhor de cara amarrada que criava os filhos como um general linha-dura. Se não me engano, era gerente de uma oficina. Um dia alguém descobriu o verbo “afanar”, e a turma não perdoou. Passamos a dizer que o seu Afanázio tinha esse nome porque afanava – esta sim, uma acusação leviana e sem provas. O pobre filho do Afanázio quase morreu de vergonha apenas pela associação idiota do nome do pai com roubo. Coitado do guri que sofreu tanto por causa de uma bobagem. Eram tempos em que se falava que vergonha era roubar e não poder carregar, mas até isso mudou quando o homem inventou a mala com rodinhas.

E o Brasil nunca mais foi o mesmo.

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