Claudia Tajes: O homem não veio? Chame a mulher

A situação é a seguinte: o país com milhões de desempregados e em vias de ver os direitos trabalhistas de quem ainda tem carteira assinada levarem uma cacetada modernizar é preciso, mas que seja bom para o lado mais fraco também. Entre as muitas mudanças que não parecem nada promissoras para a empregada, uma chama a atenção: grávidas e mães amamentando poderão trabalhar em ambientes insalubres mediante atestado médico… da empresa. Isso é bom para quem mesmo? Mais aqui: zhora.co/trabalhist.

Em meio a ameaças travestidas de benefícios, um momento de leveza. Procurando um texto para um artigo, encontrei uma crônica do jornalista e escritor Ivan Lessa, falecido em 2012 depois de viver por 34 anos na Inglaterra. Dizia ele que o que mais lhe fazia falta em Londres era o homem brasileiro. E explicava: lá, para consertar um cano, o chuveiro ou o fogão, só se conseguia contratar doutores. O homem da antena, o homem do gás e o homem da geladeira, que tão bem resolviam esses problemas no Brasil, e a custos razoáveis, eram apenas uma saudosa lembrança.

A reforma trabalhista avança. Para onde?

A reforma trabalhista avança. Para onde?

Ivan Lessa morou muito tempo longe e não viu uma sutil mudança acontecer no perfil desse profissional de quem todo mundo precisa, o homem que faz os consertos em casa. Quando eu era criança, o homem lá de casa era o seu Celso, que entendia do funcionamento de tudo e nunca nos deixava na mão. Hoje o homem do telhado, o homem do gesso, o homem da máquina de lavar, todos continuam existindo. A diferença é que agora eles marcam e não aparecem. O homem da TV a cabo, por exemplo. É quase certo que ele não surgirá no horário e, às vezes, nem no dia combinado. Reze para não ter final de Gauchão quando precisar.

Escorregadio é o homem do ar-condicionado. Na entressafra, nem tão quente, nem tão frio, ele até vem. Mas em épocas de temperaturas extremas, é bom deixar um ventilador e uma estufa na reserva. O homem da árvore é outro que demora a dar as caras. A regulamentação precisa existir para que não se derrube a vegetação ao gosto do freguês, mas existem casas com árvores quase despencando que aguardam meses pela visita dele. Bem verdade que este é um caso que requer a colaboração da Prefeitura – o que nem sempre é fácil.

Depois de tantos serviços prestados, o que espera as azuizinhas?

Depois de tantos serviços prestados, o que espera as azuizinhas?

O homem da prateleira: ainda bem que empilhar tudo pela casa não tira pedaço de ninguém. O homem do box: melhor providenciar uma cortina bacaninha para o chuveiro. O homem do sofá: puxe a cadeira e sente no chão. O homem do porteiro eletrônico: prepare-se para bater palmas na porta do prédio. O homem da tomada: velas são uma opção romântica. O homem dos móveis planejados: planeje trocar de fornecedor, senão esses móveis não saem.

Peço desculpas a todos os prestadores de serviço que marcam e aparecem, mas a classe, infelizmente, é complicada. Sorte que alguém sempre conhece um novo homem de confiança para recomendar. Eu mesma, depois de muito esperar, hoje conto com a pontualidade e o compromisso do homem da eletricidade, do homem do vazamento, do homem da obra e do homem que monta móveis. Precisando de indicações, pode me pedir, que os meus são de fé.

Mulheres à obra, uma grande ideia

Mulheres à obra, uma grande ideia

Ainda não tive a oportunidade de experimentar, mas já existem serviços feitos por mulheres – e a maioria atende exclusivamente mulheres: SOS Gurias (51 98337-7805), Ufa! (51 9993-3723) e Amigas de Aluguel (51 8118-2740) são alguns deles. A ONG mulheremconstrucao.org.br oferece cursos de formação na construção civil para quem quiser se capacitar na área, assim como a diosa.me. Quem já usou garante: pode chamar, que a mulher da pintura dá conta. E podia ser diferente?

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