Claudia Tajes: O homem pode ser bom

No fim de semana passado, bem quando estávamos todos chocados com o caso do estupro no Rio, fui ao cinema assistir a um filme que era para ser engraçado, mas fracassou muito no seu objetivo – na minha opinião, bem entendido. Na tela, qualquer coisa politicamente incorreta e esteticamente horrenda com as piores piadas do mundo sobre tudo, raças, violência, sexo e, óbvio, mulheres. Com as informações sobre o estupro do Rio ainda frescas (é o tipo de história que a gente não apaga da cabeça só porque a vida segue), ver as cenas das personagens sendo violentadas e, pior ainda, a reação delas gostando daquilo, foi ter o bom gosto estuprado várias vezes em duas horas de tortura.

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Meu filho, que estava na sessão, resumiu assim a experiência: “Eu me senti ofendido”.

Este estupro coletivo teve muitas e tristes consequências, entre elas o linchamento que a vítima sofre se não for uma guria do tipo bela, recatada e do lar. Mas gostaria de falar, aqui na coluna, dos homens que nunca estupraram e nem vão estuprar ninguém, a maioria absoluta e esmagadora deles. Os homens que, tanto quanto a gente, se sentiram agredidos, abusados e ofendidos com o estupro do Rio. E eles são milhões.

Ponto Zero: grande filme em cartaz na cidade

Ponto Zero: grande filme em cartaz na cidade

 

Para cada infeliz que bate na mulher dentro de casa, milhões de homens que convivem com respeito com as suas companheiras. Para cada desgraçado que abusa de filhas e filhos, milhões de pais que matariam para proteger suas crianças. Para cada bandido que pega uma mulher à força, milhões de cidadãos que repudiam a violência. Para cada mau-caráter que assedia suas funcionárias, milhões de chefes que não se valem do poder para comer alguém.

Agora, que o machismo é uma praga, é. Não só em uma grande empresa ou em um ministério. Aparece nas coisas mais simples, até nos copos que o marido deixa espalhados pelo chão da sala a cada noite – não exatamente para que a mulher tenha que recolher e lavar, mas só porque ele não imagina que copos sujos não são autolimpantes. A mãe dele nunca reclamou. Boa parte das mulheres também é machista, como sabemos. Essa é, talvez, a grande missão das mães de hoje – e não só das mães de meninos: mostrar às crias que, sem respeito, nada funciona. Vale tanto para os filhos quanto para as filhas. Da porta para dentro e da porta para o mundo.

Ah, se desse pra proibir toda e qualquer violência

Ah, se desse pra proibir toda e qualquer violência

“Eu me senti ofendido.” Em um dia em que o horror tomou conta dos noticiários e das conversas, essas palavras foram música. E as manifestações de homens revoltados com o estupro do Rio, um alento. Homem de verdade, seja ele hétero ou homo, está ao lado das mulheres. Aos desrespeitosos, inconvenientes, abusados e debochados, meu mais sincero repúdio. E para os violentos, os covardes, os agressores e estupradores, cadeia.

O filme Ponto Zero, do José Pedro Goulart, que entrou agora em cartaz, tem um protagonista de 14 anos, Ênio (Sandro Aliprandini), que comete o erro máximo para um menino: crescer sensível em um ambiente de bárbaros. Os colegas de escola não perdoam o guri quieto e franzino, o pai machão não serve como modelo. E, para dificultar ainda mais, a mãe desconta nele toda a amargura de um casamento triste. A transformação do Ênio não vai ser nada fácil – e o coração de quem assiste ficará saindo pela boca durante a hora e meia do filme. Para ver e depois passar dias pensando.

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