Cláudia Tajes: O horário

A pontualidade é uma virtude dos reis.

Foi assim que o primeiro namorado da vida adulta, na seriedade de seus 20 anos, me recebeu após uma longa espera na parada da kombi lotação onde havíamos marcado o primeiro encontro. Ele combinou de ficar ali para que eu, vinda da Zona Sul, não precisasse andar sozinha pela rua. Um jovem gentleman. Só que atrasei, e não havia como avisar o coitado. O celular não passava de uma possibilidade aventada nos filmes de ficção científica – com qualquer nome do tipo comunicador interespacial de retroelétrons transmissores. Por essa razão, o pobre do cara ficou plantado no centro de Porto Alegre. Se fosse hoje, eu teria encontrado só um bilhete com o valor do resgate dele quando, quase duas horas depois, cheguei.

A verdade é que, enquanto durou a minha juventude mais radical, aquela que comove pela pele fresca e firme, continuei me atrasando para os compromissos marcados. Todos eles. Porque pessoas muito jovens vivem atrasadas. Com todo o tempo para gastar, tempo para esbanjar, fica mesmo difícil a criatura entender que o que foi pode não voltar. E se o rapaz pontual à minha espera tivesse ido embora? Eu passaria os anos seguintes sem saber o quanto viria a gostar dele.

É grande o número de moças, e algumas nem tão moças, que se atrasam por não encontrar roupa para sair dentro do próprio armário. Isso eu entendo. Dependendo do dia, a calça que já vai sozinha, de tão acostumada que está a sair com a gente, veste mal. Mostra o que deveria esconder, assusta quando vista no espelho. A saia que passava até um certo ar sexy parece um saco de batatas – agora, me dou conta de que, apesar de não entender muito bem a comparação de algo com um saco de batatas, uso essa expressão há décadas. Depois de tentar todas as combinações possíveis e de detestar todas, as moças saem do jeito que dá. Em cima da cama, sobra uma pilha de roupas a ser guardada. Essa é a parte mais incompreensível: se é uma pilha, como a guria não tem roupa? Isso eu não entendo, mas acontece.

Pior do que a roupa é quando o cabelo não está em um bom dia. E cabelo tem muitos dias péssimos. É fútil, eu sei. Mas que penteado que não se ajeita é um dos maiores fatores de atraso feminino no mundo, quase posso apostar.

Aí vem o que se chama ser adulto, fase em que cada atraso pode virar um drama.  E assim, muitas vezes na marra, a pessoa se emenda. Um atraso e perde-se o vestibular, a reunião, a hora no médico, a saída da escola do filho, a prova na faculdade, a entrega do trabalho, o emprego. O atraso vira algo a nos encher de culpa, uma ameaça com várias e diversas consequências, razão suficiente para que se valorize cada segundinho ganho. De tanto tomar na cabeça, hoje sempre chego antes – e ainda fico esperando pelos outros. A pontualidade é uma virtude dos reis, disse o rapaz circunspecto lá longe, quando tudo começou. E das plebeias que aprenderam a lição, também.
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