Claudia Tajes: O ouvido sensível

Foto: Theo Tajes, especial
Foto: Theo Tajes, especial

O som que vinha daquele carro daria para botar centenas de pessoas a dançar em uma festa, de tão alto. Até o asfalto embaixo dos carros parecia vibrar. Bem verdade que seriam centenas de pessoas dispostas a dançar uma música de nível inversamente proporcional ao volume, mas cada um que ouça o que bem entender. Precisa ouvir tão alto? O motorista, já mais coroa e de boné, ia quase deitado no banco, enfiando o carro rebaixado e todo adesivado nos mínimos espaços que sobravam entre os outros automóveis. Pensava estar agradando, o coitado. Para não chamar de bagaceiro, classificação muito adequada ao perfil da criatura, digamos que era um mané. Não só pelo som que ouvia, mas pelo conjunto da obra.

O que é bom para o ouvido de um não precisa agradar ao ouvido do outro, mas gostar daquela música, sinceramente, estava além da minha compreensão. Verdade que eu escolho o que ouço segundo critérios bem chatinhos. As músicas devem ter uma letra interessante. Não podem ser barulhentas, ou têm que ter melodia no meio do barulho. Não podem perturbar os pensamentos. Não podem ocupar espaço dentro de casa. Isso tudo junto faz com que meus gostos sejam bem específicos e, às vezes, causem incompatibilidade auditiva com os mais próximos.

Minhas músicas preferidas são todas tristes. Algumas, tristíssimas. Acho que o responsável por isso foi o meu pai. Quando minhas irmãs e eu éramos bem pequenas, ele cantava para nós um fado chamado Minha Mãe É Pobrezinha. Olha a letra: “Minha mãe é pobrezinha/ nada tem para me dar/ dá-me beijos, coitadinha/ e depois põe-se a chorar”. Meu pai cantava com sotaque português e, sentadas no sofá, nós três chorávamos desesperadamente por pena daquela mãe. Era mais que uma canção, era um trauma. Quando enfim a gente se acalmava, uma sempre pedia: canta de novo? Então, ele cantava e a choradeira seguia por quantas vezes mais o pai tivesse paciência para continuar com a cantoria.

Mas voltando ao ouvido sensível. Aquele que curte algum lirismo encontra grandes dificuldades em ambientes comerciais sonorizados. Em uma loja moderninha, por exemplo, seja ela de roupa, de decoração ou de hambúrger, o ouvido costuma se sentir desesperado. Explico. Você pede para experimentar uma blusa, e o vendedor desaparece no que, por minúscula que seja a loja, deve contar com um estoque gigante. Só pode ser isso, porque os vendedores sempre demoram muito para voltar com o produto no tamanho certo. Enquanto isso, dos alto-falantes sai um tum-tum-tum que se repete sem esperança de um dia parar. É um tipo de tortura das mais lucrativas. São muitos os DJs que ganham fortunas com músicas assim, do tipo que não se pode ouvir por mais de um minuto sem enlouquecer. A essa altura, o seu ouvido não aguenta mais, e você sai sem comprar a blusa. Mas com os tímpanos intactos, pelo menos.

E quando tem uma TV ligada no restaurante? Perto de casa, um bufê que bem quebraria o galho pelo chamado custo-benefício virou uma opção descartada. Em qualquer que seja o horário, a televisão no balcão dos talheres transmite pastores pregando. Falam sem parar e talvez já tenham convertido muitos clientes. Nem foi por medo da conversão que me afastei, mas porque meus ouvidos perdiam o apetite com a gritaria. Almoce-se com um barulho desses.

Sobre televisão em restaurante, duas exceções: a do Barranco, porque a TV ligada sem som sempre está sintonizada em algum programa de futebol, e a do Sakae’s, só para ver a dona Sakae espiar, em rápidas fugas da cozinha, se o campeão dela está vencendo uma das tantas lutas de sumô que há anos passam na tevezinha suspensa.

Felizmente, o sinal abriu e o mané que fazia o chão tremer saiu a espalhar seu alto e mau som pelas ruas da cidade. E assim, entre músicas ruins, notícias desalentadoras e disparates de políticos, os ouvidos sensíveis vão levando a vida. Quando ficar insuportável, à maneira do avestruz que enterra a cabeça, o jeito é providenciar um fonezão desses que isolam ruídos. Não resolve, é bem verdade. Mas consola.

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