Claudia Tajes: o poder do “não”

Esta é uma coluna queixosa. Ou talvez não queixosa, mas desiludida. Já que o mundo parece ser um conjunto de braços interligados que dependem uns dos outros para a resolução das coisas mais básicas, o desencanto é pela dificuldade que o cidadão comum encontra para resolver as coisas mais básicas. Não só nos serviços públicos, que levam a fama (para mim, justificada) de dificultar a vida do bagual. Já tentou pedir uma providência para algum órgão desses? Bem verdade que o atendimento ruim da iniciativa privada também não fica atrás. Vamos aos fatos.

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Tentando marcar o tal do exame periódico de saúde que as empresas exigem de seus funcionários, pessoa que conheço teve o seguinte diálogo com a secretária da clínica.

– Eu gostaria de marcar uma consulta no primeiro horário.

– O primeiro horário é às 9h, mas a doutora sempre chega atrasada.

– Atrasada quanto?

– Depende. Uma hora, uma hora e pouco.

– Mas então por que ela não começa a atender mais tarde?

– Porque o primeiro horário é às 9h.

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Amargura? Olhe pela janela

Isso no setor de convênios – e sem urgência ou emergência. Nem vamos falar aqui nas dificuldades da saúde pública para não deprimir ninguém neste domingo. Já basta ter acordado na segunda passada com a notícia de que o sistema para acelerar a marcação de consultas médicas em Porto Alegre, para pacientes da Capital e do Interior, fez a fila crescer em 41,7%. Só uma coisa a declarar nessa hora: me tira os tubos.

E olha que estamos em 2014 – quando os serviços, ao menos em tese, são mais eficientes do que no tempo de Franz Kafka. Recapitulando: Kafka, que viveu de 1883 a 1924, fez dos desmandos da burocracia, como a gente sabe, um dos grandes temas da sua impressionante obra. Quer se sentir consolado pela espera sem prazo para terminar, as informações desencontradas e as caras fechadas do atendimento de uma repartição? Pega uma senha, senta na cadeirinha dura e começa a ler O Castelo. O tempo vai passar voando.

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Azedume? Olhe pela janela

Um dos Registros de Imóveis de Florianópolis (não digo qual, apenas que fica entre o primeiro e o terceiro) oferece o serviço de certidão online, o que parece ótimo para agilizar as necessidades de quem, por exemplo, não mora em Floripa. Posso aconselhar? Não caia nessa. Depois de feito o pedido e o pagamento, entra-se em um buraco negro de negativas: não sabemos, não podemos informar, não fornecemos detalhes, não pode falar com ninguém, não existe previsão. E a certidão não sai antes de dez dias – tempo mais do que suficiente para perder dois apartamentos que se pretendia alugar. A pergunta que fica é: então, por que oferecer esse serviço? Se vivo fosse, Kafka encontraria farto material para continuar a sua obra nos nossos dias.

O que leva à conclusão de que o poder mais democrático de todos, o que independe de eleição, de dinheiro, de comandar exércitos, de liderar pessoas ou de o que quer que seja, é esse poderzeco de dizer NÃO na cara dos outros. Não dá para entender. Muito melhor a sensação de contribuir para alguém concluir um trabalho, resolver uma pendenga, ter um pingo de tranquilidade. Dizer NÃO, já me esclareceram, alivia o recalque de quem não manda nada, mas tem na mão a possibilidade de empatar a vida alheia. Deus me livre. Prefiro continuar não mandando nem no cachorro lá de casa e dizendo SIM para quem eu conseguir ajudar. Não são muitos, é verdade. Mas podem contar comigo.

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Mau humor? Olhe pela janela 

E o céu de Porto Alegre nesses dias? Antídoto para qualquer mau humor. E para quem diz que o pôr do sol daqui é igual a qualquer outro, uma dose de bairrismo: é melhor porque é nosso.

 

 

 

 

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