Cláudia Tajes: O prêmio de Sem Noção do Ano vai para…

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Ainda faltam duas semanas, eu sei. E duas semanas em que a gasolina e o gás de cozinha podem subir de novo, a reforma da Previdência pode ser votada, alguma nova maracutaia em curso pode muito bem dar o ar da sua desgraça. O que possivelmente não aconteça nesses 15 dias que faltam para 2017 terminar é o 13º salário ser depositado na conta dos funcionários do Estado e da prefeitura. A gente escreve a cada semana querendo acertar, mas tomara que essa previsão esteja errada – tão errada quanto as dos adivinhos e afins que a cada final de ano aparecem no Fantástico cheios de certezas que nunca se realizam.

Da série Recordar é Morrer de Vergonha. Esses dias, alguém mandou as profecias dos entendidos em sobrenatural para a Copa de 2014. Parecia um vídeo do Porta dos Fundos. Senhores de cabelos brancos e roupas de baiana, mulheres com jeito de Mortícia Adams, um que lia a sorte em grãos de arroz, exotéricos em geral, nenhum deles enxergou a lambança no caminho da Seleção Brasileira. Pelo contrário, davam até placar e nomes dos heróis do Hexa. A futurologia não é uma ciência exata, disse um dos entrevistados quando o repórter voltou lá para cobrar os 4×0 a nosso favor que ele havia vislumbrado. Exata é uma coisa, sem noção é outra.

Se fosse para dar o prêmio de Sem Noção do Ano, a briga seria de foice no escuro. Cada declaração de político. Cada asneira de subcelebridade. Cada barraco. Cada notícia. Cada uma. Nada contra todos se manifestarem, o problema é que o filtro, o superego ou o que seja parece que foi desativado em boa parte da população. Uns ejaculam no coletivo, outros pela boca. Desculpem a nojeira.

Na categoria Sem Noção, duas contribuições para deixar a peleia acirrada: os policiais do Rio fazendo selfies com o traficante preso – com o meliante posando para algumas das fotos, e o cantor preso por agredir a mulher que, liberado rapidinho, acabou a noite se apresentando na festa da corporação. Fica a dica: cantar pode te tirar de uma fria.

Foi um ano em que diaristas fizeram menos faxinas, palestrantes fizeram menos palestras, cozinheiros fizeram menos jantares, taxistas fizeram menos corridas, enfermeiras ficaram sem pacientes, professores particulares perderam alunos, e assim por diante. Os que trabalham por conta própria sofreram com a falta de dinheiro de quem, até então, podia pagar pelos seus serviços. Também, com salários parcelados, congelados, reduzidos ou cortados, impossível manter o padrão que se tinha. E isso que a tal da reforma trabalhista era apenas uma ameaça no horizonte. Vamos ver daqui para a frente.

Uma das (poucas) boas coisas do ano foi a mobilização em defesa das mulheres desrespeitadas, agredidas, violentadas. Estava na hora de se perceber que marido que bate na mulher não é um problema de casal, é um problema da sociedade. Bem verdade que a PEC que proíbe o aborto em caso de estupro foi um tapa na cara de todas. É no que dá misturar política e religião. Brasil, o país dos aiatolás.

E já que o tema foi citado, que sujeito sensacional é o papa Francisco. Quando já se achava que ele não falaria o nome da minoria muçulmana que está sendo exterminada pela maioria inimiga em Bangladesh, vai lá o Francisco e diz: “A presença de Deus também é chamada Rohingya”. É mais do que religião, é amor à humanidade. O que torna matar ou proibir por conta de qualquer crença algo pequeno e mesquinho como só o homem, no pior sentido da espécie, sabe ser.

Entregando a coluna antes de saber o adversário do Grêmio na final do Mundial, não vou consultar os videntes do ex-Hexa para saber se o ano terminará ainda melhor para o lado azul do Rio Grande – no qual me incluo. Até os mais otimistas evitam sonhar. De qualquer jeito, já foi bom demais. Aguarda-se a estátua do Renato para breve. Mas que não demore tanto quanto as obras da Copa. Até porque essas seguem tão furadas quanto previsão – e promessa – de Ano-Novo. Quem sabe na Copa de 2026.

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