Claudia Tajes: O “primeiro eu” é um dos sintomas de que a civilização já era

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A civilização foi inaugurada quando o primeiro indivíduo xingou seu inimigo em lugar de atirar-lhe uma pedra, disse Freud. Mesmo quem não manja nada de psicanálise (meu caso) sempre encontra citações para todos os fins nas palavras do velho sábio austríaco.

As cenas de todos os dias nos telejornais e, pior, nos grupos de WhatsApp são prova de que o conceito de civilização, do jeito como nos ensinaram, já há muito foi para as cucuias. A coisa é feia e vem se debruçando, como tão bem definiu o professor Luís Augusto Fischer em seu clássico Dicionário de Porto-Alegrês. O que todo mundo se pergunta é: no que isso vai dar?

Em Porto Alegre, deu em batalhas de inspiração pré-históricas por causa de um saco de bisnaguinhas. Um dia, contaremos para nossos netos que, em uma fria tarde de maio de 2018, mães de família se estapearam para levar para casa o maior número possível de sacos de bisnaguinha. O “primeiro eu” é outro dos sintomas de que a civilização já era. Por que deixar um pouco para o outro se eu sou mais forte e posso levar tudo?

Como nos mais baixos dos nossos momentos – por exemplo, as ocasiões em que tornados destelham casas e o pessoal bota o preço da lona lá em cima –, a remarcação foi geral. Gasolina a R$ 8,99 o litro. E, mesmo assim, terminou. Não sei no supermercado de vocês, mas, onde eu compro, tudo ficou mais caro. Uma senhora reclamava para o coitado do menino que abastecia a prateleira: vocês aumentaram até o Diabo Verde! E a pasta de dente. E as massas. E as pilhas. E o papel higiênico. E as bebidas. Os perecíveis, nem se fala. Se há quem sabe ver na crise uma oportunidade, esses são os donos de supermercados.

Muita gente a pé, muita gente de bicicleta. A falta de combustível estimulou até campanhas para que se pusessem as perninhas a funcionar. Ótimo para quem mora no Menino Deus e trabalha no Centro, ou mora na Cidade Baixa e trabalha no Moinhos, ou mora em Ipanema e estuda na Tristeza. E isso se a pessoa tiver condições físicas para a empreitada. Mas haja perna para quem mora em Gravataí ou Alvorada ou na Restinga e trabalha a dois ônibus de casa. A crise, definitivamente, é a hora do cada um por si. Melhor deixar a empatia, se é que ela existe, para tempos mais calmos.

Com a negociação de Temer et caterva, caminhoneiros e seus patrões ganharam uma trégua de 60 dias no preço do diesel, entre outras medidas paliativas. Quem não dirige caminhão, infelizmente, segue tão ralado quanto antes. Ao menos até a entrega da coluna, as cidades continuavam paradas. Nem medicamentos para quimioterapia chegavam aos hospitais. Mas as batalhas nos corredores dos supermercados, essas já haviam terminado. Ou seria apenas um cessar-fogo?

Se o melhor do Brasil é o brasileiro, mas nem todos, não faltou quem conseguisse ser engraçado – e inteligente – no infortúnio. Sobre as manifestações com o inacreditável pedido de uma intervenção militar, disse o cartunista Adão Iturrusgarai: “O brasileiro é o único animal do mundo que protesta para perder direitos”. Sobre as escolas fechadas e os hortifrúti sumidos das prateleiras, manchete d’O Sensacionalista: “O único programa de Temer que deu certo é o Criança Feliz: sem aulas e sem verduras”. No Twitter: “O Brasil só não está pegando fogo por falta de gasolina”. E também: “Troco galão de 20 litros de gasolina por sítio ou casa na praia. Interessados chamar inbox”.
Esses somos nós, sempre dispostos a ver o lado menos ruim da coisa. Desde que, é claro, ninguém mexa na nossa bisnaguinha.

Leia mais colunas da Claudia:
:: Claudia Tajes: Filhas costumam ser muito críticas com suas mães
:: Baixinhos só deveriam se incomodar com a pouca altura na pista de um show
:: O quarto filho dos meus pais foi concebido em uma falha do anticoncepcional

Leia mais
Comente

Hot no Donna