Claudia Tajes: O quarto filho dos meus pais foi concebido em uma falha do anticoncepcional

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Quando ele surgiu no colo da mãe, nós corremos para ver de perto aquela revelação da natureza: um menino. Recém-nascido, mas um menino. Eram os anos 1970 e a ecografia – modernamente, ultrassonografia – não havia chegado a Porto Alegre. Até que nascesse, o sexo da criança era uma incógnita com direito a adivinhações: barriga pontuda é guri, barriga arredondada é guria. Se a mãe tem desejo de comer doce, é guria. Salgado, é guri. E etcetcetc.

O quarto filho dos meus pais foi concebido em uma daquelas famosas falhas do anticoncepcional que fizeram muitas famílias crescerem além do esperado. No caso do meu irmão, acho que tenho alguma responsabilidade. Gostava de ficar fuçando nas coisas da minha mãe quando ela saía, e volta e meia mexia em uma embalagem roxa que liberava comprimidos quando se girava o estojo. Para a mãe não descobrir a arte, eu tomava o remédio. Só bem mais tarde entendi o que era e para o que servia.

Se tive participação, foi um ótimo negócio. Nasceu meu irmão mais novo. Ao contrário daquele pré-candidato cujo nome não se deve dizer para evitar quatro anos de azar, meu pai não considerava que as filhas fossem resultado das suas “fraquejadas”. E não era louco de achar, porque já éramos três, àquela altura. Quando a mãe engravidou de novo, ele jurava que a Maria Cândida ou a Maria Angélica estava a caminho. Naquele 24 de abril, o telefone tocou na casa dos avós e veio a notícia: é guri. Para amenizar a ciumeira, minha irmã mais nova, então com três anos, escolheu o nome. Eduardo. E, assim, o Duda entrou nas nossas vidas.

Para mim, com oito anos, foi como ganhar um boneco que se mexia, chorava, fazia gracinhas e, infelizmente, algumas nojeiras. Minha irmã de sete anos não tinha muita paciência com ele, preferia brincar com as crianças da vizinhança. O bebê ficou sob minha guarda. E eu me diverti. Cortei o cabelo do coitado, fantasiei o gorducho de pirata, cangaceiro, polícia e o que mais desse para improvisar, fotografei em todas as poses, embalei na pracinha e o obriguei a vestir sunga vermelha com bota ortopédica e capa de super-herói – de tudo, é isso que ele não me perdoa. Nessa época o Duda disputava a mesma mulher com o meu pai – e ganhava, na maioria das vezes. O pai compreendia. O filho só foi 100% dele no Estádio Olímpico. Meu irmão cresceu ganhando tudo no futebol, depois amargou a famosa seca em que foi preciso ser forte. E foi.

Antes que a adolescência o tirasse de mim, continuei arrastando o Duda para cinemas, finais de semana no Interior, festinhas de amigos e onde mais ele topasse ir. Meu irmão diz que eu o desencaminhei, mas não concordo. Verdade que ele era pequeno demais para alguns programas, mas, se quisesse e a mãe deixasse, eu o levava. Eram tempos de um mundo mais tosco em que ninguém pedia carteira de identidade para uma quase criança entrar, por exemplo, nos bares da Osvaldo Aranha. Certa noite, na festa do troféu Scalp – precisa estrada para saber o isso significa –, passaram várias vezes a mão na bunda dele. Meu pai ficou furioso comigo.

O Duda teve uma banda, Os Carlos, que tocava os grandes sucessos de Roberto & Erasmo em ritmo de punk rock. Show memorável foi um do bar Escaler, nas barbas da Redenção, em que um morador de rua se apaixonou pela minha mãe enquanto o meu irmão cantava, ou talvez fosse mais exato dizer que gritava, “Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui”.

Viramos adultos. Eu mais, acho. O Duda mantém aqueles sentimentos da juventude que a maioria das pessoas vai apagando a cada aniversário. Às vezes, isso causa alguns problemas para ele. No trabalho, por exemplo. Espera-se que um sujeito de quarenta e poucos anos esteja preparado para superar os percalços e as injustiças do caminho. Ele não está, e sofre. Ou então larga tudo e recomeça. Sempre recomeça. A sorte é que tem muito talento e mais ideias do que eu já tive em toda a minha longa existência.

Criado em uma casa de maioria feminina, meu irmão casou várias vezes, todas com mulheres bacanas. Teve um filho só, e que saiu igual a ele. Depois que a nossa mãe morreu e a família se espalhou por aí – incrível como a gente se dispersa sem uma mãe para reunir a prole –, nós nos vemos bem pouco. Mas na terça-feira, 24 de abril, sei que vou lembrar daquela manhã em uma casa que já não existe, com meninas que há muito cresceram e avós que há tempos se foram, quando chegou a notícia: é guri.

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