Claudia Tajes: O que aconteceria se o Sul virasse um país

Foto: Claudia Tajes, arquivo pessoal
Foto: Claudia Tajes, arquivo pessoal

Finalmente somos um país independente. Não que tenha sido fácil. Foram décadas e décadas de luta, por último inspirada pela Catalunha em chamas. Se é bom para Barcelona, é bom para Porto Alegre. Foram vários plebiscitos sem representatividade até que o último, vitorioso, escolheu o lugar certo para atrair os votantes: a porta do supermercado. De passagem para comprar a costela do churrasco e a cervejinha do fim de semana, o eleitor se sentiu motivado para praticar o civismo. Você quer que o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul formem um país independente? Segundo a organização, a maioria absoluta marcou SIM no papelzinho impresso sem formalidade e sem oficialidade. O que não faz diferença alguma, já que o fio do bigode é a nossa garantia. Chora, Justiça Eleitoral.

O movimento O Sul é o Meu País, como não poderia deixar de ser, foi liderado pelo nosso Rio Grande. Da sede em Passo Fundo saíram todas as decisões. Contraditoriamente, Passo Fundo sempre foi uma cidade de braços abertos para todo mundo. A Jornada Literária e a Feira do Livro de lá que o digam. Agora, não, brasileiro que quiser participar dos nossos eventos, trate de providenciar o passaporte. Só entra depois de enfrentar a alfândega. E é bom fazer o câmbio por pilas, nossa moeda oficial, já na chegada. Dólar talvez a gente aceite, mas o real, que vale pouco e menos ainda dentro das nossas fronteiras, jamais.

Quando houve o Plebisul histórico, menos de 400 mil pessoas votaram pela separação – número bem distante da meta de mais de um milhão dos organizadores. Mas quem liga para números numa hora dessas? Se não deu para reunir as hordas no Parcão, uma boa mateada na pracinha resolveu. Alguns shows nativistas de conscientização depois e estamos aqui. Livres. Independentes. Soberanos, como era o objetivo do movimento. Bem verdade que é uma soberania meio capenga. Como o Sul não produz petróleo, gastamos muito em gasolina. Pelo preço que nos cobram, parece que os brasileiros querem recuperar a Petrobras às nossas custas. A solução seria desenvolver um combustível a partir da erva-mate, mas andamos sem recursos para isso. Nosso governo não consegue pagar nem os funcionários, quem dirá investir em pesquisas. Mas ninguém reclama. Pindaíba com soberania é outra coisa.

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Outra vantagem da separação é que ficou muito mais perto viajar para fora do nosso país. Saindo de Porto Alegre, em uma hora e vinte estamos em São Paulo, comprando bolsas Louis Vuitton na Oscar Freire para inveja das amigas. Estudantes voltam de Belo Horizonte com mestrado no Exterior. Já as novelas da Globo agora são exibidas com legenda. Ninguém mais precisa se esforçar para entender aquela chiadeira dos cariocas, graças a Deus.

Só sei que tem sido bom viver no Sul independente. Ir para as praias de Santa Catarina como sempre fizemos – mas com muito mais direito. Agora somos todos do mesmo país. Antes também, mas enfim. Chato é que os catarinenses não parecem dar a mínima para isso, continuam tranquilos como sempre foram, independente de quem pise em suas areias. O litoral que também é dos gaúchos segue sendo invadido pelos paulistas, e já se fala em uma nova batalha pela conquista definitiva da Praia do Rosa. No futuro, os livros contarão a história da gloriosa Batalha das Sungas.

E ainda tem o Sulito, nosso mascote, o mapa da região sul com cara, braços, pernas e, muito importante, boné. A gente brinca e faz piada, mas no fundo, bem no fundo, isso tudo é triste. Se alguém duvida, é só espiar a estampa do Sulito, na imagem acima. Só não vale partir para o exílio.

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