Claudia Tajes: “O que fez as brasileiras ficarem obcecadas pela bunda perfeita?”

Foto: AFP
Foto: AFP

Desde o caso da moça que morreu na cobertura do cirurgião plástico falcatrua, colunistas – em sua maioria, homens – se perguntam, abismados, nos jornais e programas de televisão: mas como alguém se submete a um procedimento com um sujeito chamado Doutor Bumbum?

Sem querer dar uma de sabichona, não é tão difícil de entender. Sem falar que quem faz essa pergunta está, de certa forma, dividindo a responsabilidade do “doutor” com as vítimas dele. Talvez a grande questão da história seja: o que fez as brasileiras ficarem obcecadas pela bunda perfeita?

Não só pela bunda, claro. Desde que o Doutor Pitanguy reconstruiu os rostos de algumas das mais famosas estrelas do cinema, e construiu a nossa fama de especialistas, o Brasil está no topo do ranking de maior número de cirurgias plásticas realizadas no mundo. E o número de homens atendidos cresce a cada ano. Entre as estéticas, destaque para a lipoaspiração, a abdominoplastia, tudo o que se refere a seios, nariz e orelhas, aumento de lábios e o lifting. Não sou hipócrita, faria quase todas essas cirurgias. Problema nenhum em entrar na faca e sair melhor dela. Brabo é quando se toma essa decisão para ficar no padrão exigido pelos outros.

Muitos dos rapazes que não entendem o porquê de alguém procurar o Doutor Bumbum já comentaram por aí que fulana não tem bunda. Que fulana tem bunda caída. Que fulana tem bunda de catar graveto.

Aí fulana se compara com algumas deformadoras de opinião do tipo blogueiras fitness, com suas bundas imensas, musculosas, atrevidas, bundas quase com vida própria, e ela lá, naquela penúria. Embora as revistas digam que é possível conquistar o bumbum da Paolla Oliveira com alimentação e treino certos, fulana sabe que não é bem assim. Que uma bunda como a da Paolla Oliveira não nasce para todas. E vem chegando o verão, e as novas coleções de biquínis para deixar sua bunda irresistível já estão nas lojas, e a calça jeans que fulana comprou não deixou a retaguarda dela nem de longe parecida com a da Sabrina Sato. É bullying e autoestima no pé, tudo junto. Quem nunca?

Enquanto isso, no Instagram, o Doutor Bumbum, com seus mais de 600 mil seguidores, se vende como mestre. Mais de 9 mil bioplastias no currículo. Tudo tão simples que ele faz em casa. Acho que dá para entender, sim.

Incompreensível é que, mesmo depois da primeira denúncia, o Doutor Bumbum não tenha merecido uma investigação. Continuou tomando espumante antes das cirurgias com suas vítimas e na companhia da mãe médica com o registro profissional cassado, da técnica de enfermagem que também trabalhava como empregada doméstica na cobertura e da namorada de 19 anos que fazia de tudo, de marcar as consultas até ajudar com a anestesia. Outra pergunta dos colunistas: por que essas mulheres não se informaram melhor? Buenas, se a gente tivesse o hábito da informação, o país não estaria como hoje o encontramos.

E acho que vai piorar. Saiu no Jornal da USP que 90 mil das cirurgias estéticas de 2017 foram em pacientes adolescentes. E o Brasil virou o campeão de cirurgias íntimas, que “melhoram o aspecto e rejuvenescem o órgão sexual feminino”. Ou seja, nem na intimidade mais radical a pessoa pode ser como ela é, ou como o tempo a deixou. Daqui, a pouco aparece no Facebook um Doutor Xereco vendendo seus serviços. Duvidar, quem há de?

Nessas todas, a Miss Bumbum do Distrito Federal, que deu uma retocada na natureza justamente com o Doutor Bumbum, está ameaçada de perder a faixa. A organização do concurso não permite intervenções estéticas nas concorrentes. Grande coisa.

O verdadeiro prêmio foi sair viva e sem sequelas das mãos do psicopata, embora mal conseguisse andar de tanta dor e febre nos dias seguintes ao procedimento. Vai-se a faixa, fica a bunda. Ela está no lucro.

Leia mais colunas da Claudia:
:: Claudia Tajes: “Faz parte do falar dos gaúchos o hábito de engolir o S no final das palavras”
:: Pensei em quando me imaginei já correndo para a consagração, mas dei de cara o fracasso
:: É urgente ver a Amazônia de perto antes que vire história

Leia mais
Comente

Hot no Donna