Claudia Tajes sobre polêmica com Silvio Santos: “Não é mimimi. É falta de noção e de respeito”

Foto: reprodução
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Cresci com o Silvio Santos na sala de casa. Não havia escolha nem escapatória. Aos domingos, antes mesmo do almoço, a mãe ligava a TV, e a família passava o dia inteiro, até o Fantástico começar, vendo o Silvio em ação. Quadro após quadro.

O mais chato de todos era o Cidade contra Cidade. Chato, não. Um porre. Cidades do interior se enfrentavam em uma gincana. Quem vencesse ganhava uma ambulância. Na época, eu não cultivava preocupações sociais e lugares como Pindamonhangaba e Jacupiranga não significavam nada para mim. Era criança, mal conhecia o meu bairro. O Cidade contra Cidade tinha lá sua função, talvez seja até o precursor desses quadros assistenciais que todo programa de auditório aplica, mas era muito chato. Eu assistia torcendo não por alguma das cidades, mas para que acabasse logo.

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Então vinham as competições entre os sexos. Quem Sabe Mais, o Homem ou a Mulher? As perguntas eram ridículas, mas facílimas. Ainda assim, os artistas penavam para descobrir. O que se come frita com bife? O rei dos animais tem o que maior do que a da companheira? Os astros precisavam de muitas dicas para responder “batata” ou “juba”. Também tinha o Ela Disse, Ele Disse, em que casais eram testados a dar as mesmas respostas. Em caso de erro, acontecia de alguns deles brigarem às ganhas e ao vivo.

Não havia como ficar indiferente à Porta da Esperança. Às vezes o convidado do programa queria ganhar um Chevette, mas, em geral, as pessoas sonhavam em reencontrar um irmão ou conhecer a mãe. Lá em casa, quando as portas da esperança se abriam, gente ficava fingindo uma gripe repentina para disfarçar as fungadas do choro.

Namoro na TV foi o antepassado do Tinder. Um pretendente se apresentava diante de uma bancada de moças e era escolhido, ou não, por elas. Inconveniente como de hábito, o apresentador perguntava até o salário do sujeito, e ainda comentava: ganha pouco, muito pouco. Constrangedor a mais não poder, era sempre um quadro esperado pela família brasileira. Ainda bem que inventaram os aplicativos.

E o Boa Noite, Cinderela – que depois virou nome daquela combinação de drogas para apagar e depenar os incautos? Três meninas humildes concorriam para ganhar bonecas, bicicletas ou quais fossem seus inatingíveis desejos. Em geral a mais bonitinha era escolhida a Cinderela da noite e recebia, junto com muitos presentes, um abraço do príncipe com cabelo tigelinha. Bem que eu queria ter sido a Cinderela.

Hora do Show de Calouros. Pedro de Lara é coisa nossa, cantava o coro enquanto os jurados entravam no palco. Nunca curti muito. Só me agradavam os desafinados, os sem talento, os pobres coitados que a produção escolhia para divertir a audiência. A gente demora a aprender que rir dos desprotegidos não tem graça alguma. Depois de um domingo inteiro de TV ligada, o tubo quente, vinha o Qual É a Música, com o dublador Pablo e sua cara triste – que nem todo o glitter conseguia disfarçar.

Quando veio o quadro do “quem quer dinheiro?”, com aviõezinhos de cédulas atirados nas colegas de trabalho, eu há muito já estava livre da maldição de passar os domingos com o Silvio Santos. De lá para cá, o homem ganhou uma concessão de TV, enriqueceu mais, ganhou poder. De vez em quando alguma das suas grosserias virava notícia, mas sempre com panos quentes: o Silvio, que figura. Agora degringolou.

No último fim de semana, diante da própria mulher e das filhas, ele assediou duas cantoras, debochou do cabelo de uma menina e disse a uma bailarina que ela era graciosa, “embora sendo a única negra entre as brancas”. Não é mimimi. É falta de noção e de respeito. Silvio Santos envelheceu diante das câmeras com a peruca cada vez mais acaju – o que é horrível. Mas nada que se compare a tudo de feio que tem dentro daquela cabeça.

A era rock’n’roll do rádio contada por quem esteve lá – e, por via das dúvidas, anotou tudo. Katia Suman e os Diários Secretos da Ipanema FM, da editora Besouro Box, é um livro que a gente lê ouvindo a voz da autora a cada palavra. Neste dia 17, às 18h30min, bate-papo no Teatro Carlos Urbim, bem no centro da Feira do Livro, com boa parte da Ipanema reunida: Mauro Borba, Alemão Vitor Hugo, Jimi Joe e Claudio Cunha acompanhando lady Suman, com mediação do profe Luís Augusto Fischer. Em seguida, autógrafos. Alô, alô, radiouvintes, não percam. 

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