Claudia Tajes: “O WhatsApp é a versão atualizada dos fofoqueiros de ontem”

Foto: Pexels
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Deu no jornal Sensacionalista: WhatsApp leva o prêmio de Veículo do Ano. Fake news com humor.
Embora as tantas publicações jornalísticas de variadas tendências, é no WhatsApp que os mais afoitos – deixemos assim para não ofender ninguém – se “informam”. E não tem nada pior do que o famigerado zap para espalhar inverdades por aí. Não sou eu (pobre de mim) que digo, são os fatos. Tanto que o WhatsApp agora impede que a mesma mensagem seja enviada para mais de 20 pessoas em uma única leva, tentativa de diminuir o alcance das fake news. Até julho, cada mensagem podia ser enviada para até 200 almas. Aumentou a mão de obra dos mal-intencionados, mas não terminou com o trabalho sujo. Tem até um candidato que quer rever isso daí, se eleito for.

Faço parte de pouquíssimos grupos de WhatsApp por absoluta convicção. O da família, graças ao bom Deus, comunga das mesmas ideias e do mesmo time de futebol. Devemos ser dos poucos parentes que não passarão o Natal afastados neste ano. Quando me adicionam a um grupo sem perguntar se eu quero, saio no mesmo instante. Já anda tão difícil conviver com pessoas que têm, ou tiveram, significado para a gente, que razão existe para ser incluída em comunidades que não vão acrescentar nada além de boatos diários? Vade retro.

O WhatsApp é a versão atualizada dos fofoqueiros de ontem, que dependiam da própria língua para espalhar pelo prédio suposições sobre as intimidades da vizinha solteira do 301. Ou então se penduravam no telefone fixo para contar alguma bomba que nunca se confirmava, mas que era passada adiante como um fato cientificamente comprovado. Quem nunca foi prejudicado, ou prejudicou alguém, por uma fofoca inconsequente? Interessante é que desde sempre as mulheres foram rotuladas como as grandes linguarudas da raça, afirmação controversa – para dizer o mínimo. “Homem não faz fofoca” é uma frase tão equivocada quanto “homem não chora”. Só se o homem não fosse humano. Bem, alguns até parecem não ser, mas esses são até mais intrigueiros.

Com o WhatsApp, além da fofoca, a maldade ganhou amplitude digital. Quer acabar com uma reputação? Publique nos seus grupos do WhatsApp. Ninguém se dará ao trabalho de verificar se a coisa procede mesmo, e a batata quente cibernética vai passar de celular em celular até virar uma condenação. Ah, e não adianta a vítima ir a público desmentir e se defender. No WhatsApp, a verdade interessa muito menos do que detalhes sórdidos, de preferência sem provas para aumentar o nível de bizarrice.

O mais irritante é que as fake news, amplamente documentadas em supostos recortes de jornal cheios de erros de gramática e em vídeos onde canastronas e canastrões desconhecidos dão testemunhos delirantes sobre política, arte, educação, comportamento e o que mais a ocasião mandar, terminam sempre com as mesmas imprecações (ô, palavrinha) às massas: bora compartilhar. Curte e compartilha. Compartilha para todos os seus contatos.

Bora compartilhar bom senso, meus amigos. Porque se cada um continuar passando adiante a verdade que lhe é mais conveniente, aí de nada terá adiantado todo o progresso que viver até aqui nos trouxe. Melhor voltar ao pombo-correio. Pelo menos as fake news demorarão mais a se espalhar.

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Bem a propósito de tudo o que anda acontecendo, o professor Vitor Necchi lança Não Existe Mais Dia Seguinte, crônicas sensíveis com o consolo da filosofia em tempos de intolerância. Neste sábado, dia 20, às 17h, na Livraria Taverna. Pode compartilhar que é quente.

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