Claudia Tajes: ode ao fiador

Todos podemos ter os nossos defeitos, idiossincrasias, imperfeições, pecados, mal feitos, maus pensamentos. Todos menos o fiador. Quem já precisou pedir para um amigo ou parente o constrangedor obséquio de servir de fiador para alugar um imóvel há de concordar. Vencida a primeira etapa, a de se armar de coragem para abordar a futura vítima, e na hipótese de a vítima se dispor a ajudar, ela terá sua vida estudada, esquadrinhada e devassada pelo setor de análise das imobiliárias. É preciso ainda mais que idoneidade e ficha ilibada para ser fiador. É preciso ser santo.

00a310b2Pode me chamar de monumento ao fiador

Meu grande amigo Luciano (o sobrenome não revelo por razões que explico em seguida) já perdeu a conta das vezes em que serviu de fiador para conhecidos e desconhecidos. Ele nunca diz não, e como fiador não é um artigo que abunda (palavra feia) por aí, os pedidos se multiplicam. O Luciano é um caso extremo de bom coração. Chega a fechar a agenda para ir ao cartório assinar folhas e folhas de contratos na hora em que os locatários conseguem escapar das suas obrigações de assalariados. Eu nunca vi tanta generosidade. A recompensa: jamais se incomodou com qualquer dos seus protegidos. E se não digo aqui o nome completo dele é para evitar que a fila de desesperados aumente a ponto de se confundir com a romaria de um canonizado. O que, aliás, o Luciano deveria ser.

00a310aaA identidade do fiador será preservada 

 

Fiador na mão, só falta agora o supracitado passar pelo vestibular cruel das imobiliárias. As empresas parecem partir do princípio de que todo mundo é culpado – principalmente o seu ilibado e idôneo fiador. Vários meses de extratos bancários, comprovante de residência, matrícula dos imóveis, contracheques, imposto de renda, documentos autenticados e sei lá o que mais, tudo em dobro se ele for casado. Trabalha como autônomo? As dificuldades aumentam. Por pouco não intimam a mãe do fiador a depor na delegacia – uma bem distante, de preferência, para dificultar ainda mais a vida de todos. Reunindo a papelada, o fiador talvez se pergunte: mas por que mesmo eu entrei nessa fria? É mais que amizade. É amor à humanidade.

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E por que não usar o seguro fiança e dar uma folga para o fiador? Às vezes, porque representa uma cacetada no orçamento do locatário. Em outras, porque a imobiliária não aceita, como aconteceu agora mesmo com o meu irmão, transferido para Florianópolis, ao tentar alugar um apartamento. Minha amiga de infância Chuchi, que não tinha notícias da nossa família há décadas, se prontificou a ser fiadora – ainda arrastando junto o marido, que nunca nos viu mais gordos. Tudo porque, há 28 anos, passou pelo mesmo percalço quando foi viver em Floripa. Tem coisas que nem a sua família faz por você. Mas a solidariedade do fiador faz.

 

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Este texto não poderia terminar sem um abraço a dois amigos que já me fiaram por várias e diversas vezes, a Leticia e o Marcelo. Sem um agradecimento ao Maurício e ao Plínio, da Morano Imobiliária, que resolveram a bronca cabeluda de uma pessoa próxima com rara compreensão. E com a proposta de que se crie o Dia Nacional do Fiador, ou que ao menos sejam erguidos monumentos ao fiador pelo país. Se ele não merece, não sei quem mais.

 

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Dependendo da hora em que você ler este jornal, ainda dá tempo de ir ao Teatro Renascença no sábado ou no domingo (ou no sábado e no domingo) para assistir A Vertigem dos Animais Antes do Abate, tragédia grega dirigida pelo Luciano Alabarse e pela Margarida Peixoto. Como se diz nesses momentos: bom espetáculo.

00a310b3A vertigem: ainda dá tempo de ver 

 

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