Claudia Tajes: Oitenta anos

Tem dias em que não dá a mínima vontade de ler o jornal – jornal nenhum do mundo. É tanto crime, tanta desgraça, tanta desesperança que o vivente quase volta para a cama e se esconde lá até o próximo atentado, o próximo assassinato, a próxima tragédia. Sem falar nas notícias da política e em certas opiniões que, no meu caso, leio só por masoquismo. Ando até pensando em comprar um gato ou um cachorro, ou os dois, só para oferecer algumas dessas opiniões às necessidades dos bichinhos – OK, alguns dirão que já fazem isso com esta coluna. Não tem problema, não mandando ofensas pessoais ou à minha santa mãe (coisa que, por incrível que pareça, acontece), divergências são bem-vindas e o debate é liberado.

Eu todas as manhãs

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Mas mesmo nos piores e mais pesados dias, tem uma coluna que nunca dá para deixar de ler no jornal. Não só na minha modesta percepção, diga-se, mas na de milhares de leitores por todo esse imenso país dividido entre os que querem o Temer dentro e os que querem o Temer fora (e entre os quais me inscrevo): a coluna do Luis Fernando Verissimo. Porque não precisa ser de esquerda ou de direita para concordar que, como colunista, não há quem chegue aos dedos dele.

Claro que escritores e jornalistas de estilos variados escrevem muito bem e nos informam, divertem, ilustram. Mas o Verissimo é diferente. Para começar, o texto dele nunca tem uma fórmula. Não há começos de frase que se repetem, uma ideia que depois vira outra, experiências que ambicionam virar lição, nenhum desses macetes que – confesso – eu mesma uso bastante. Exibição de cultura como a que a gente encontra em alguns dos colunistas mais letrados, isso também não há. Embora o homem seja uma enciclopédia.

É não é?

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O Verissimo também é diferente porque, a essa altura da vida, prestes a completar 80 anos – se é que o escrevente do cartório não se enganou – e consagrado como está, poderia ficar na moita a respeito do seu lado na política ou de outras questões que acabam virando polêmicas. Vivemos uma onda de intolerância e grossura que não poupa nem um autor como ele, como se vê de vez em quando na seção de e-mails dos leitores. Mas, se ficasse em cima do muro e escrevesse sobre orquídeas, por exemplo, o Verissimo não seria o Verissimo.

Nunca foi tão fácil aparecer na TV

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Fiquei procurando na internet algumas frases dele para colorir a coluna, já que estou longe dos meus livros, mas tive medo de copiar/colar palavras falsas. Os sites de citações estão cheios de equívocos que seriam engraçados, se não fossem ridículos. Então vai aqui um trechinho de Os Jogos, coluna publicada no dia 21 de agosto, o melhor balanço que li sobre a Olimpíada do Rio. Só para me dar razão nesses 80 (80?) anos do Verissimo.

“(…) E acho que o badminton (tênis com peteca), a esgrima e o hóquei sobre grama poderiam fazer uma Olimpíada à parte, só dos chatos. No caso do polo aquático, outro que pode competir na Olimpíada dos Chatos, o que impressiona é a vitalidade dos jogadores, obrigados a se manter à tona, controlando a bola e ao mesmo tempo tentando se proteger da marcação do adversário, o que, presumivelmente, inclui pontapés, puxões no calção e outros acontecimentos abaixo da linha da água que o juiz não pode ver. Mas eu fico falando mal de esportes que não me interessam sem medir as consequências dos meus preconceitos. Se eu aparecer um dia com uma peteca na boca, marcas de golpes com um taco de hóquei sobre a grama por todo o corpo, trespassado por um sabre e todo molhado, saberão por quê.”

E tem outro aniversariante chegando ao 50 e lançando disco em setembro. Escorrega mil vai três sobra sete é o novo trabalho do Frank Jorge, outra unanimidade dessa Porto Alegre meio combalida. Não ouvi e já gostei. Nas loja e em todas as plataformas digitais possíveis e imagináveis. Compra lá.

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