Claudia Tajes: os campeões do clichê

Ouviu as declarações dos jogadores depois das derrotas da Seleção Brasileira? Dizem que faltou empenho técnico e tático, mas pelo jeito todos foram exaustivamente treinados para dar as mesmas, e batidas, respostas ao final das duas partidas.

– Agora é levantar a cabeça e seguir em frente.

– A vida continua e não é um insucesso que vai abater a nossa equipe.

– Todo mundo aqui sabe do seu valor.

– A gente pecou em alguns aspectos e pagou o preço no final.

– Tem que assumir as responsabilidades e começar a pensar em 2018.

– Não é porque perdeu que vai dizer que está tudo errado.

***

E etc. etc. etc. Bem verdade que não apenas jogadores e a comissão técnica abusam dos chavões. Sem falar que o Parreira apareceu com a tal carta da dona Lúcia – no mínimo, um jeito bem original de se autoelogiar. Agora que saíram os anúncios de cerveja, banco, carro, salsicha, desodorante, cueca e todos os outros que apostavam no hexa para aumentar as vendas, vêm aí as propagandas políticas e mais um festival de clichês. Já são muitos os candidatos à Assembleia, aos governos estaduais, ao Senado e à Presidência espalhando suas frases feitas – que não necessariamente virarão promessas cumpridas.

00a2db7eA carta da Dona Lúcia virou piada na internet

Reduzir o número de impostos. Melhorar a segurança pública e a estrutura carcerária. Combater a corrupção. Investir em educação. Resolver o eterno problema da saúde pública. Fazer obras de infraestrutura. Na frente da TV, eu me sinto na eleição de 2010. Ou 2008. Ou 1996, ou em qualquer outra lá de trás. É como um Não Vale a Pena Ver de Novo sem fim. Na maioria dos casos até o terno e o penteado do candidato parecem saídos de outro século – não que o cidadão precise usar o cabelo do David Luiz ou um casaco da São Paulo Fashion Week para apresentar suas propostas. Mas assim como se comenta que a nossa Seleção parou no tempo, parece que os nossos candidatos também não renovaram seus esquemas técnicos e táticos para enfrentar um mundo onde, a exemplo do futebol, já não existem bobos.

 

00a2db75Vermelho-paixão desperta o vulcão do amor

Falando em propaganda e clichê, alguém ainda aguenta ouvir: “No aniversário da loja Fulana quem ganha o presente é você”? Ou: “A empresa Tal é como vinho, melhora a cada ano”? E: “O que era bom ficou ainda melhor”? Dê-lhe chavão também nos diálogos das novelas. Quando o Laerte confessa os sentimentos para a Luísa ou se o agora-sem-cicatriz Virgílio abre a boca: socorro. É só frase feita, um mal que, volta e meia, chega à literatura. A Cíntia Moscovich, que nas oficinas de escrita criativa ensina ser o clichê um perigo sempre a rondar o texto, sugere manter distância de expressões como abrir com chave de ouro, fechar com chave de ouro, bola da vez, cair como uma luva, a sete chaves, chover no molhado, fugir da raia, respirar aliviado, voltar à estaca zero, trocar farpas, divisor de águas. O clichê é uma craca que gruda sem a gente notar. Uma armadilha que tira a elegância do que se quer dizer. Seria a lingerie vermelha para seduzir o namorado, com a vantagem de que a lingerie atiça o vulcão do amor, acende o fogo da volúpia e provoca um incêndio de paixões. Pensando bem, se for para chamar esse monte de clichês para o seu romance, é melhor deixar a lingerie vermelha fora disso.

00a2db7fMoscovich na caça aos clichês

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