Claudia Tajes: Os Honestos

(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) Oração para escapar do xilindró
(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) Oração para escapar do xilindró

Uma coisa que eu queria entender: de onde saem tantos ladrões, corruptos, corruptores, falcatruas e outros da mesma laia que infestam o nosso pobre país?

Pensando nas pessoas que eu conheço: a maioria absoluta é honesta. No máximo rouba uns minutinhos do trabalho para tomar um café mais demorado ou espiar a vida alheia nas redes sociais – que estão mais para antissociais, nesses dias de patadas a torto e a direito que testemunhamos na internet. A maioria absoluta também é filha de pai e mãe honestos. E quem não é, bem, nem por isso precisa virar meliante. Claro que me refiro a todos que, no mínimo, tiveram escolha – pode chamar de comida, casa, escola. O meio determina o homem, acredita-se, mas isso não precisa ser uma condenação. E para os que estão em dúvida entre transgredir ou não, sempre existe a ameaça da punição. Para que o medo de cometer uma infração seja maior do que a vontade de fazê-lo.

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Acho que me enquadro nos dois casos – o meio pode não determinar o homem e o pavor de ir para o xilindró -, como mostra esta ilustrativa passagem. Meu pai era o cidadão mais correto do universo. Acredito que fosse incapaz sequer de um pensamento desonesto. Jamais abriria o Facebook no horário de expediente e menos ainda se apropriaria do que não fosse dele. Por isso mesmo, a família não exatamente nadava em dinheiro. O trabalho não costuma pagar todas as contas. Só sei que eu, criança ainda, ia ao supermercado perto de casa e sofria vendo o dinheiro que a mãe dava para as compras sumir em troca de uns poucos produtos. Nessa época pré-código de barras, as etiquetas eram coladas nas mercadorias. Foi então que, apesar das lições de honestidade do meu pai, comecei a trocar os preços altos de certas coisas por outros que julgava mais razoáveis. Se o sabonete custasse cinco dinheiros, eu trocava para dois dinheiros. Se o óleo de soja (a canola ainda não havia sido criada artificialmente para simular um óleo mais natural e saudável) custasse sete dinheiros, eu trocava para três dinheiros. E assim por diante.

Tomara que nenhum deles se candidate em 2016

Tomara que nenhum deles se candidate em 2016

Minha mãe se entusiasmou com o meu talento para fazer boas compras gastando pouco. As irmãs foram dispensadas de ir ao Pegue-Pague, só dava eu nos corredores apertados do mercadinho da rua. Até que um dia, distraída a trocar o preço de uma vassoura, senti como se estivessem me batendo nas costas com cassetetes. A polícia me pegou, pensei em pânico. Nada. O cabide onde as vassouras ficavam penduradas havia desabado em cima de mim. O susto foi tão grande que nunca mais troquei preço de nada.

Gente boa, felizmente, é o que não falta. Pessoas humildes que encontram carteiras recheadas e dão um jeito de achar seus donos. Os taxistas que entregam celulares esquecidos. Quem mal tem e ainda ajuda os que têm menos ainda. Todo mundo que ganha o próprio dinheiro – no mais das vezes, pouco, e que jamais pensou em desviar verba de merenda escolar, de remédio, de creche, de casa popular, de petróleo, de seja lá o que for. Em Brasília, de onde só vem má notícia, a catadora de lixo Teresa Silva encontrou R$ 3.200 dentro de uma meia. E devolveu para o dono. “Não tenho dinheiro, casa chique nem estudo. Meu diploma é o caráter e a vontade de ajudar o próximo”, disse ela.

(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) Oração para escapar do xilindró

(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) Oração para escapar do xilindró

Para cada Eduardo Cunha, milhões de pessoas honestas. Um dia, ah, um dia havemos de vencer.

Galisteu: dinheiro paga mico?

Galisteu: dinheiro paga mico?

Já a Adriane Galisteu sentou no vaso para dizer que sempre leva na bolsa um eliminador de odores que acaba com o constrangimento dela de fazer cocô na casa dos outros. Dinheiro ganho de forma honesta, sem dúvida. Mas eu passava.

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