Claudia Tajes: os lados do Centro de Porto Alegre

Não tem nenhuma novidade nisso: quando o centro de uma cidade é revitalizado, a circulação aumenta, a criminalidade diminui, os negócios melhoram, empregos surgem e etc. etc. etc. Só coisas boas. Já aconteceu em muitos lugares e desde 2010 está em andamento (oficialmente, ao menos) aqui em Porto Alegre. De vez em quando uma praça é remodelada e um espaço público é resgatado. Com isso, novos eventos acabam entrando no calendário. O centro da cidade anda sendo discutido por grupos de cidadãos bem-intencionados e virou local de iniciativas interessantes, como as visitas guiadas pelos caminhos da Matriz, dos antiquários, dos sebos. Junte-se a isso o Theatro São Pedro, os museus e centros culturais, o Mercado Público, os restaurantes, as promessas nebulosas do novo Cais. E o Centro vai esquecendo a pinta de terra de ninguém para ser melhor aproveitado pelas pessoas.

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Quem mora no Centro não quer saber de mudar. Primeiro porque os prédios, a grande maioria da época de um conceito mais generoso de construção, costumam ser sólidos e espaçosos. Muitas janelas dão de cara com o Guaíba. Só a vista já vale o endereço. Depois, porque no Centro se encontra tudo fácil – e se encontra, inclusive, o Tudo Fácil, que não é tão fácil assim. Recomenda-se sangue doce para esperar pelo atendimento, que é cortês e resolve, mas no tempo dele. Um detalhe engraçado: ao lado da entrada do Tudo Fácil da Borges, o edifício Negrinho do Pastoreio perdeu várias das letras de ferro do seu nome. E isso que o Negrinho do Pastoreio é aquele a quem a gente recorre para recuperar o que desapareceu pela vida.

00a355c3Nem o negrinho trouxe as letras de volta

Fui ao Centro para comprar um jogo das antigas do videogame Nintendo 64, que hoje é raridade quase com preço de lançamento 2015. O Google informou o nome das lojas e eram todas no Pop Center. Um telefonema para descobrir: Pop Center é o nome de batismo do Camelódromo. Lá dentro, revelações a cada banca. Relógios com mp3 e laser, pantufas do Fuleco, um iPhone chamado iDhone, muitas leggings de todas as estampas impossíveis e inimagináveis. Na banca do Nintendo, um senhor que ficaria perfeito em um filme do Tarantino – se o Tarantino tivesse peito para fazer o convite a ele. Na saída, pessoas cantando e dançando músicas religiosas em um volume alto o bastante para se sobrepor ao carnaval dos ônibus, dos carros, dos vendedores na calçada. E eram apenas 10 da manhã.

00a355c5Vistas diferentes a cada olhar

O lado pesado do Centro. Basta caminhar de noite pela Duque, pelo Viaduto da Borges e pela Salgado Filho para ver: como tem gente dormindo na rua. É a miséria com subdivisões. Há os que deitam com colchão e cobertor, mas não são poucos os que se acomodam sobre papelões. Acomodam é força de expressão. A cidade conta com um serviço eficiente de recolhimento de moradores de rua para abrigos durante a noite, mas muitos não vão de jeito nenhum porque não querem tomar banho, ou porque lá não podem fumar, ou por causa do horário em que a luz é apagada, cada um com seus motivos para recusar algumas horas de um pouco mais de conforto. Também na Praça XV as pessoas dormem pelas escadas. Durante o dia são muitos os pedintes de todas as idades, os indiozinhos dançando para ganhar um troco, as mães com filhos pequenos pelo chão, os velhos com carrinhos de supermercado carregados de tralhas. Com essas cenas e as notícias de que os carros voltarão a circular pela Rua da Praia, acabando com um espaço consagrado das pessoas, dá a impressão de que um Centro mais humanizado ainda está longe. O caminho do gol foi lindo, mas melhor será quando a cidade for linda para quem vive nela todos os dias.

00a355c6Uma parede não precisa ser só uma parede

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