Claudia Tajes: Os palpiteiros

O palpiteiro, aquele que mete a colher em todos os assuntos, foi sempre figura fácil nas conversas de parentes, vizinhos, amigos, casais, colegas de trabalho. Quem não tem um sabichão na família? Quase sempre é um tio também pode ser tia ou um cunhado que não se constrangem em dar palpite em tudo. Quem já não testemunhou um palpiteiro tomando conta do recinto com uma palestra que não termina nunca e que, no mais das vezes, não interessa a maioria dos presentes?

O palpiteiro nem sempre sabe sobre o que está falando, mas fala mesmo assim. E com certezas. Não raro encerra a frase com um “entendeu?”, para não deixar dúvidas de que foi compreendido. Se não foi, ele segue discursando. E não se mixa. A voz do palpiteiro sempre se sobrepõe à dos demais. Ele grita até quando ri. O palpiteiro é, antes de tudo, um espaçoso.

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Palpite: o gato e o homem vão no mesmo cabeleireiro

Com o advento do Twitter, Facebook e demais redes sociais, a figura do palpiteiro se multiplicou. E se amplificou. Com o celular na mão ou na frente do computador, todo mundo é expert, eminência, PhD, psicólogo, psiquiatra, economista, cientista político, conselheiro sentimental, crítico de cinema, chef, técnico de futebol e o que mais a ocasião mandar. Não tem problema, todo mundo tem direito de palpitar. Volta e meia cometo um palpite sobre o Temer et caterva, meus temas preferidos no Facebook. Palpitar é da vida. Mas, às vezes, a turma exagera.

No caso do professor que teve a entrevista interrompida pela entrada dos filhos, por exemplo – uma das melhores coisas que esse troço mágico chamado internet nos mostrou nos últimos tempos. Os fatos: em sua casa, na Coreia do Sul, o professor dá uma entrevista por Skype para a BBC de Londres quando a filha pequena abre a porta e entra dançando. O professor afasta a menina com o braço sem olhar para ela, talvez achando que ainda pode salvar a cena. Em seguida, um ninja de andador irrompe escritório adentro, e logo uma moça de traços orientais entra desesperada, e agachada, para puxar as crianças dali. Na sequência, o andador entala na saída e a moça surge de quatro para fechar a porta enquanto o professor pede desculpas.

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As crias entraram em cena e os palpiteiros piram

Os palpiteiros não perdoaram. Para começar, chamaram a moça oriental, que era mãe das crianças e mulher do professor, de babá. Preconceito, a gente vê por aqui. Depois passaram a criticar as atitudes dos adultos. “Ele devia ter posto a menina no colo”, “ela puxou a criança com violência”, “a babá vai ser demitida”, “ele perdeu a oportunidade de mostrar que é um ser humano”, “ele trata os filhos mal”, “é uma família horrível” e mais muitos outros palpites que se desdobraram em teses e lições de moral durante vários dias. Minha linha do tempo virou o foro que logo condenou a conduta do professor. Isso porque, claro, os palpiteiros sabem sair com charme, elegância e sangue frio de qualquer situação. Mundo pretensioso, a gente vê por aqui.

Sabe-se lá se aquela não era a entrevista da vida do professor. Sabe-se lá se a BBC de Londres ligaria de novo para ele. Sabe-se lá do desespero da mulher querendo ajudar o marido. Se os palpiteiros me desculpam o palpite, apesar de todas os problemas que nos cercam, um vídeo engraçado pode ser só um vídeo engraçado. Ainda bem.

Arriscando um palpite: o cusco é tricolor

Arriscando um palpite: o cusco é tricolor

Com tanta polêmica, a avó das crianças surgiu para explicar que a família costuma fazer longos Skypes para matar a saudade intercontinental, e que as crianças devem ter pensado que eram as vozes dos avós que vinham do escritório – o que deixa a invasão mais querida ainda. Poucos dias depois, um gato pulou no colo do correspondente da rede France 24 em Ancara, interrompendo a matéria. Sem falar no cusco que parou o jogo entre Grêmio e Zamora pela Libertadores, na Venezuela. Por enquanto, nenhum palpiteiro das minhas relações levantou a hipótese de o gato ser um terrorista e o cachorro, bolivariano. Por enquanto.

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