Claudia Tajes: os tipos de vizinhos

Depois de mudar tantas vezes de endereço e de encontrar pessoas de diferentes tipos, jeitos, orientações e níveis de boa convivência, cheguei à conclusão de que ser vizinho é muito, muito mais do que uma condição, temporária ou permanente, que coloca estranhos a dividir o mesmo espaço ainda que ocupando seus próprios minimundos. Ser vizinho é um grande, complexo e generoso talento.

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Sou de uma época em que as famílias, estabelecidas em casas lado a lado ou cercadas por outros apartamentos, levavam a sério o conceito de vizinhança. Não bastava cumprimentar e, em certos casos, trocar algumas palavras, como a mim parece suficiente. O vizinho de antes vivia os problemas e as conquistas da porta contígua. As esposas (poucas trabalhavam fora) formavam uma turma e os empréstimos iam além do sal e do arroz para salvar uma receita: volta e meia elas se socorriam com dinheiro para uma compra de emergência, a joia para o casamento de um parente, uma blusa para variar o figurino. Vizinhos eram próximos e não só pela geografia – o que é bom e ruim. Quando se escancara a porta de casa, difícil que não entrem também a fofoca e a maledicência. Não por acaso, a língua comprida dos vizinhos já foi assunto de vários livros e filmes. Sem esquecer os papos animados no hall do edifício.

00a69eecVizinhança (e insegurança) em quadrinhos

Dona Eda, dona Ilza, dona Maria, dona Antônia, dona Zoé, dona Rosinha, dona Berenice, dona Marisa, dona Luíza, dona Geni, dona Eni, dona Lorena, dona Nenê, vizinhas que viraram grandes amigas da minha mãe. Dos maridos delas, pouco sei. Cidadãos sérios, passavam rápido, sem tempo para muita conversa. Outra figura sempre presente nos endereços em que morei: um senhor de idade mau humorado, daqueles que implicava com barulho de criança e com a música que a gente ouvia. Não é politicamente correto, mas era o chamado velho louco do prédio. Certa vez estávamos na sala, mãe e crianças, provavelmente assistindo à novela das oito, quando alguém tentou entrar. Forçava a chave, empurrava e batia. Apavorados, fomos todos espiar pelo olho mágico. Era o velho louco do sexto andar, que andava sempre de terno e chapéu. Minha mãe abriu a porta e ele começou a gritar, empunhando a bengala: saiam da minha casa, ponham-se daqui para fora! O infeliz morava no 601, desceu no andar errado e queria adentrar no nosso 501 como se dele fosse. Saiu de fininho e sem nem pedir desculpas. Velho louco.

00a69eeaMedianeras, o filme: os vizinhos também amam

Meu histórico é de muita sorte com vizinhos e vizinhas. Há um que outro grosseiro – e ignorado. Já a minha irmã passou maus bocados com um casal que odiava crianças e gatos, tudo o que ela tem em casa. Teve que mudar de edifício por causa da intolerância dos dois. Agora em novo endereço, com um senhorio gentil e compreensivo, vive feliz com seus vizinhos que gostam de gente. O que deixa qualquer condomínio melhor. E o mundo, então, nem se fala.

00a69eebPaul Auster e seus endereços em diário de inverno

Um dos autores preferidos desta coluna (e da torcida do Flamengo, Grêmio, Inter etc), Paul Auster fez um inventário de todos os endereços em que morou no seu mais recente – e lindo – livro, Diário de Inverno. No total, vinte e um. O mais impressionante: quando conseguiu comprar a primeira casa, onde foi viver com a mulher grávida, ele notou que, na vizinhança, pessoas adoeciam, morriam, passavam por tragédias. Um dia descobriu que a casa havia sido de duas irmãs, agora muito velhas, uma cega e a outra surda, que “se odiavam e viviam em combate mortal desde a infância, juntas a vida toda e, no entanto, inimigas figadais até o fim”. Ficou sabendo que a irmã surda castigava a cega trancando-a no armário do andar de baixo. Para piorar, encontrou caixas cheias de panfletos nazistas, brochuras anticomunistas e um exemplar do mais repelente discurso antissemita já escrito, o Protocolo dos Sábios de Sião. Foi demais. Paul Auster não conseguiu morar na casa. Mudou muitas vezes mais e, vai que isso tenha influenciado, hoje é um dos maiores escritores do mundo. Nômades, nem tudo está perdido.

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