Claudia Tajes: “Pensei em quando me imaginei já correndo para a consagração, mas dei de cara o fracasso”

Foto: Pexels
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Tuíte engraçado que circulou nesses dias de Copa. Uma guria de ideias bastante atrapalhadas, para se dizer o mínimo, publicou: mulher que fala de futebol não presta para casar. Ao que outra replicou: a gente não quer casar, a gente quer o fim do escanteio curto. Melhor resposta, impossível.

Se em pleno ano da graça de 2018 alguém ainda acha que mulher não pode falar de futebol, devia levar uma daquelas punições que excluem o sujeito dos gramados para todo o sempre. Mesma pena que merece quem desrespeita as repórteres de campo ou comete bandalheiras como as que, para nossa vergonha, vimos os tais torcedores brasileiros fazendo com a moça russa. Deixa elas trabalharem. Deixa elas falarem. Deixa elas se divertirem.

Eu tenho me divertido com os jogos, sempre dentro de um comportamento padrão. Torço pelo mais fraco – em sentido amplo, com o país e sua seleção misturados nos critérios: mais fraco no futebol, mais fraco economicamente, mais fraco de malandragem, mais fraco fisicamente e por aí vai. A grande curiosidade desta Copa é que alguns dos mais fortes foram os primeiros a serem comidos, para usar a definição que já é clássica no Brasil de hoje.

Entrego a coluna antes do jogo do Brasil com a Bélgica e esperando que a gente avance para a semifinal. Só tomara que Neymar e sua turma não cruzem com o Uruguai. Vai ser duro manter o coração verde-e-amarelo diante da Celeste. Assim como a maior parte dos meus compatriotas, também me alegrei com a Alemanha precocemente fora. Nada como um tombinho de vez em quando para regular o botão Frieza. Triste foi ver o Senegal eliminado por um critério de desempate tão sem graça quanto o número de cartões amarelos. Quando tudo o mais falhasse, bem que a Fifa poderia desempatar a contenda considerando os chutes a gol, a quilometragem percorrida em campo, o treinador mais bonito. Nesse quesito, o Senegal já seria o campeão de 2018.

Na Copa das surpresas, os japoneses quase surpreenderam o mundo fazendo dois gols na favoritaça Bélgica. Torcedores brasileiros já comemoravam o possível adversário menos complicado quando veio a virada. Em lugar de segurar a bola, como manda a prudência, os japoneses mandaram um último escanteio para dentro da área adversária. Seria como eu (1m59cm) disputando uma bola aérea com a Katia Suman (1m84cm). Claro que um belga gigante deixou os orientais baixinhos para trás – e o gol da virada veio nos segundos finais da prorrogação. A vitória exige cuidados. É bom tratar dela como uma porcelana que pode quebrar a cada instante, porque se espatifa mesmo. Não sobra nada do sonho. Depois não adianta chorar.

Vendo a derrota por virada dos japoneses, pensei em todas as vezes em que me imaginei já correndo para a consagração, mas dei de cara com o meu fracasso. No amor, sempre ele, foram muitos os resultados negativos. Parecia que a partida estava decidida, nada mais poderia alterar a classificação. Então, de repente, um erro de passe meu ou uma jogada desleal de alguém, e pronto. Perdia por virada. Como o fair play é fundamental nessas horas, ainda era obrigada a fazer cara de boa perdedora se cruzasse com os objetos da minha queda – quando o desejo, na verdade, era armar uma fiasqueira digna de menino Neymar.

Saindo das categorias juvenis para a não menos batalhada classe dos veteranos, a gente aprende melhor a identificar as grandes frias e já não manda uma bola aérea para ser disputada entre um pitoco e um jerivá. Pelo contrário, é esse o único momento em que o escanteio curto é admitido. Você cobra e vai administrando até o apito final. No amor, na família, no trabalho, nas relações em geral, sempre que for preciso agir com cautela para não colocar tudo a perder, é isso que agora eu faço. Às vezes, dá uma gastura, ponderação demais deixa qualquer jogo monótono. Azar. A essa altura do campeonato, é preciso segurar o resultado.

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