Claudia Tajes: Perdendo o controle

E o que dizer da quantidade de controles remotos que se tem à disposição hoje? O da TV, o da NET, o do DVD, o do som, o do videogame, o do ar-condicionado, o da porta da garagem, o do portão do prédio, o do sistema de segurança, o do carrinho de brinquedo, o do computador, o das luzes, o das cortinas, o do teto solar, o da cachoeira da piscina, o do mordomo. E por aí vai.

Disse Millôr Fernandes: quando a classe média inventou a poltrona, terminou a aventura humana. Nessa mesma linha, o advento do controle remoto acabou de vez com o caçador destemido que um dia morou dentro de cada homem. Levantar para quê, se com o controle remoto na mão todo mundo pode tudo?

Antes do controle remoto, a aventura humana

Antes do controle remoto, a aventura humana

Agora, quando falta pilha no controle da televisão, ninguém sabe ao certo como agir. É caso para separação definitiva ou para discutir a relação? Ainda bem que os controles do videogame são recarregáveis, ou a quantidade de crianças problemáticas aumentaria muito. Ficar sem pilha no exato instante de uma mudança de fase? Muitos anos de tratamento adolescência adentro. Talvez com sequelas na idade adulta.

Fico imaginando como era a vida sem controle remoto. Quer dizer que, sempre que queria trocar de programa, a pessoa levantava do sofá, ia até a televisão, mexia no botão de selecionar canais, achava o que queria, sentava de novo e ficava assistindo? E, se não gostasse, tinha que repetir toda a operação?

Quem controla o quê mesmo?

Quem controla o quê mesmo?

Nada parece mais pré-histórico em tempos de zapeamento maluco. Teve uma época em que pensei estar com labirintite. Eu me acomodava para ver televisão com o meu filho e me sentia enjoada, tudo em volta girando. Depois me dei conta de que era pela velocidade com que ele mudava de filme para desenho para série para futebol, sem parar e sem dar tempo para o meu cérebro entender as imagens. Um dia tomei o controle remoto da mão do jovem, deixei por um minuto inteiro no mesmo canal. E fiquei curada.

Tenho várias histórias com controle remoto. A última foi quando o do split aqui de casa emperrou de vez – e os cinquenta graus da rua logo se instalaram na sala. Troquei as pilhas, assoprei bem, e nada. Quatro dias depois, o técnico veio e me olhou com pena – ou raiva, talvez. Sem perceber, eu havia passado quase uma semana tentando ligar o ar condicionado com o controle da NET. E ainda tive que pagar os R$ 100 da visita.

Já o meu namorado resolveu o problema dele de graça. Na falta de um profissional (todos assoberbados) para arrumar o controle do split instalado bem no alto, ele agora liga o aparelho com um pedaço de cabide. É uma espécie de controle remoto paleolítico, que ainda obriga o usuário a se alongar um pouquinho a cada vez que precisa ligar ou desligar o ar condicionado. Funciona que é uma beleza. Essa é a ideia: controle remoto para tudo, mas o homem no controle. Sempre.

Como sobreviver ao fim do mundo: Catharina Conte em cena

Como sobreviver ao fim do mundo: Catharina Conte em cena | Foto: Jéssica Barbosa

Para esquecer o controle remoto e sair de casa: o Porto Verão Alegre segue até 19 de fevereiro com muitas atrações a preços populares. São apresentações para todos os gostos, dos consagrados Homens de Perto a espetáculos mais experimentais. Todos com o talento de quem não desiste de fazer arte em Porto Alegre. Programação completa aqui: portoveraoalegre.com.br

Impermanências: dança e poesia no Porto Verão Alegre | Foto: Lu Mena Barreto

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