Claudia Tajes: Por que amar a cidade

Foto: Fernando Gomes, Banco de Dados
Foto: Fernando Gomes, Banco de Dados

O senhor com o pente de plástico no bolso de trás da calça. A moça apressada atravessando a rua no meio dos carros. A mãe com uma criança em cada mão. O rapaz tatuado que escreve uma letra de música no verso do folheto com ofertas de imobiliária – ou seria uma carta? O menino com o uniforme do colégio todo limpinho. A menina com uma mancha de molho no uniforme do colégio. O vendedor de cachorro-quente esperando o fim da aula. Uma bicicleta. Duas bicicletas. Três bicicletas. O motorista impaciente xingando todas as bicicletas do mundo. A loira falsa com o salto que vai trancando nos paralelepípedos. O sorriso com poucos dentes do bebê no carrinho.

Existe vida no bar vazio (Foto: João Marcelo Osório, especial)

Existe vida no bar vazio (Foto: João Marcelo Osório, especial)

O adolescente que lê as revistas de mulher pelada da banca de jornal – deve ter ficado sem 4G. Dois irmãos pequenos tentando vender panos de prato. A babá falando no celular. Um bando de guris pedindo um troco. O casal que se beija. O casal que briga. A turma na saída do colégio. O recruta com os olhos vermelhos, quem sabe chorando pelo cabelo recém-cortado. A velha senhora com o seu velho cão, um mais cansado que o outro. O mendigo que quer cigarro. Dois rapazes de mãos dadas. Um padre. Um rabino. Duas freiras. E, de repente, alguém incorpora um santo.

Em algum lugar, os restos de verões passados

Em algum lugar, os restos de verões passados (Foto: João Marcelo Osório, especial)

A família na sorveteria. O carregador da empresa de mudanças. O torcedor diante da TV do bar. As namoradas abraçadas. O pai preocupado com as contas que já vão vencer. O gato que fugiu. A guria chorando atrás do gato que fugiu. O rapaz lendo um livro no ônibus. O som da cama de alguém arranhando o piso no apartamento de cima. O filme repetindo pela centésima vez na TV a cabo. A reprise de um jogo em que o seu time perdeu.

Em vez de carros, música no meio da rua (Foto: João Marcelo Osório, especial)

Em vez de carros, música no meio da rua (Foto: João Marcelo Osório, especial)

O som de uma festa entrando sem ser convidado no quarto do bebê que acabou de dormir. Um senhor ficando cada vez menor na UTI do hospital. A professora acordando às cinco para chegar a tempo na escola. O estudante que não sabe sequer uma questão da prova. O menino que carrega um violino. O cachorro que arrasta a dona pela calçada. O sorvete derramado na calçada. Mais uma árvore cortada.

*

O parque vazio depois das seis da tarde. A vaga que sobrou depois que o carro foi roubado. O carteiro que entrega uma encomenda. O funcionário que não recebe o salário. Outra família sendo despejada. Os ray-bans falsificados na banca do camelô. A garota demitida. O imigrante que procura trabalho. O guri chorando porque não ganhou um brinquedo.

A cidade também dói (Foto: João Marcelo Osório, especial)

A cidade também dói (Foto: João Marcelo Osório, especial)

Um show no meio da rua. O argentino que faz malabares ao lado de um menino cor de prata. O moço espremendo laranjas na lancheria. O homem varrendo as folhas na calçada. O sol que desaparece. A senhora fechando a loja no fim do dia. Os carros parados na avenida. O casal na fila do cinema. O pai cansado. A mãe cansada. A criança que não quer deitar.

*

A cidade é uma história para ser contada diferente a cada instante. E apesar de tantos pesares, é essa a graça de continuar gostando dela.

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