Claudia Tajes: Porto Alegre vai a Paris

E então, sem planejamento algum, a família ganhou de presente uma viagem para Paris. Segundo li, várias companhias baixaram o preço dos voos para a França como incentivo ao turismo de final de ano em um dos países-alvo dos atentados na Europa. Mas foi em Berlim que o caminhão surgiu do nada para ferir e matar em uma feira de Natal. Impossível prever se e onde a barbárie vai acontecer. Sem falar que, embora por motivos bem diferentes, ninguém pode dizer que está seguro em Porto Alegre.

Otimismo: o pessoal curte um solzinho a -2ºC | Arquivo pessoal

Otimismo: o pessoal curte um solzinho a -2ºC | João Marcelo Osório, especial

A chegada foi antes das seis da tarde – que já era noite fechada. O 1ºC que o termômetro marcava nunca mais parou de descer, apavorando até os nativos. Tendência das ruas nos dias em que passamos lá: todo
mundo entrouxado e com o nariz vermelho. Quando os pés endureciam de frio, o jeito era descer para o metrô e atalhar por dentro da terra. Ainda bem que os brechós nos esquentaram com casacos peludos como ursos polares sintéticos. Doeria muito gastar uma fortuna em roupas de inverno para logo em
seguida derreter nos 50ºC do verão gaúcho.

Uma cidade de frente para o Guaíba, digo, Sena | João Marcelo Osório, especial

Uma cidade de frente para o Guaíba, digo, Sena | João Marcelo Osório, especial

Outra tendência: pessoalzinho jovem com as canelas de fora. O frio congelando a água das fontes e a turma hipster com a barra da calça dobrada e um palmo de canela desafiando a friaca. Muitas vezes, sem meia. A moda não é para os fracos.

Foram 10 dias em um apartamento na Bastilha, alugado de um desconhecido que deixou absolutamente todos os seus pertences lá, do MacBook novinho na estante da sala a uma coleção de casacos Versace
no armário. E uma quantidade espantosa de talheres, e os perfumes no banheiro, e todos os livros, e as fotos dos parentes. Fez um único pedido: cuidem para não quebrar as taças. Quebrei uma já indo embora. Será que a gente, que tem por regra desconfiar – com razão, algumas vezes –, teria esse desprendimento? Não pude me responder.

Frio de renguear cusco e congelar estátua | João Marcelo Osório, especial

Frio de renguear cusco e congelar estátua | João Marcelo Osório, especial

Embora tudo seja muito caro, os preços não são maiores do que os do Rio de Janeiro. Periga até dar para viver com o que se ganha (exceção para quem é obrigado a sobreviver com o salário parcelado), usando um transporte público que funciona, adotando a cultura do antidesperdício, sendo menos consumista, essas coisas todas tão bonitas de dizer e tão difíceis de praticar. Já comecei a fazer as contas.

Pra onde se olha, tudo é bonito de se ver | João Marcelo Osório, especial

Pra onde se olha, tudo é bonito de se ver | João Marcelo Osório, especial

Nossa comemoração de Ano-Novo foi em casa, quatro pessoas de idades variadas e com a mesma vontade de fazer coisas boas na vida e de contribuir com o mundo – não só por causa das várias garrafas de espumante nacional que terminaram vazias em cima da mesa, juro.

Será que 2017 vai ser melhor? | João Marcelo Osório, especial

Será que 2017 vai ser melhor? | João Marcelo Osório, especial

Depois de muitas horas em pé e congelando nas filas das exposições (por que mesmo a gente não faz isso na própria cidade?), de passar os dias vadiando por todas as direções, de comprar baguete tradição
(a melhor) sempre quentinha e jamais se esfarelando toda em qualquer padaria de esquina (são tantas), de ver filmes em francês entendendo quase nada e compreendendo quase tudo, de não pensar em trabalho e de brincar que não acabaria, acabou. Estamos todos de volta e com o ano já andando. Junto
com um ou outro livro, uma camiseta, o casaco peludo e a reprodução de um quadro, veio a tal vontade de fazer alguma coisa que importe. Pela gente, pelos outros. Mais o compromisso de mandar uma taça pelo correio para que o nosso senhorio parisiense nunca deixe de confiar nas pessoas.

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