Claudia Tajes: “Primavera, nunca te pedi nada, mas que tal te apresentares mais cedo neste 2018?”

Foto: Pexels
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Primavera, minha flor, nunca te pedi nada, mas que tal te apresentares mais cedo ao trabalho neste 2018
que, de todo jeito, está mesmo voando? Quem te implora não é alguém que costuma reclamar do clima, juro. Se a temperatura não baixa o suficiente em julho para se usar o casaco comprado por uma pechincha de um siberiano em visita aos pampas, sempre teremos Caxias. E se o pessoal se espreme em uma casa lotada na Tramandaí chuvosa, paciência. Basta uma manhã de sol para se tomar um torrão.

Sem falar de outra particularidade do clima, primavera, que é garantir as conversas de elevador. No verão: que horror esse bafo. A gente já sai do banho suando. Quarenta e oito graus dentro do carro, até postei no Face – e por aí vai. Têm verões que ficam para sempre, como aquele em que o Batista desmaiou. Tão quente que a geladeira parecia um armário, não dava conta de refrigerar nada. Mais ou menos como aconteceu no lado de lá do Equador, onde o verão de 2018 foi cruel. Seis morreram na Espanha por conta da onda de calor, Portugal sofreu com incêndios, a França temeu repetir as milhares de mortes de 2003, quando enfrentou as temperaturas mais altas em séculos, e até países como a Áustria e República Tcheca penaram com os termômetros pegando fogo.

Pelo menos nesse quesito, os brasileiros são mais preparados. Criados com o sol na cabeça, não apenas resistem como se divertem com o calor. Um europeu derreteria se passasse o dia inteiro em uma praia, como nós. Os que não derretem acabam se mudando para o Nordeste, abrindo pousadas e faturando em cima dos brasileiros. Nisso eles são preparados, como mostra a história.

Já os últimos invernos, primavera, foram desdenhados por muitos. Inverno fazia no meu tempo, isso aí é só uma fresca, diziam os mais velhos. Ou então: inverno foi o que eu peguei nos Alpes, você estão reclamando de barriga cheia. Aos que não nasceram nos anos 1940 ou não são habitués das montanhas nevadas, restava congelar em silêncio. Pois agora acabou o desdém. Estamos todos tremendo juntos. E nunca mais faltou assunto para as conversas de elevador. Hoje é o terceiro dia em que eu mato o banho. Precisei chamar o Darcy Pacheco para arrancar meu filho das cobertas. Tomei uma atitude importante: comprei um ceroulão.

Se é difícil para nós, que temos casa e conforto, que tristeza pensar no que os mais desassistidos estão passando. Lembro de uma professora que, há alguns invernos, fez uma campanha para conseguir meias para os seus alunos. Meias. Em uma escola aqui de Porto Alegre, as crianças iam para as aulas só de tênis, os pés gelados. Se faltavam meias, imagina todo o resto. Aliás: aquelas roupas sem uso que entopem os armários da maioria das pessoas, por que não doar – e logo?

Só sei, primavera, que dei para sonhar contigo quando o relógio toca de manhã bem cedo, o céu tapado de neblina. Em 21 dias a contar deste 1º de setembro, espero te ver em todas as ruas, em todas os canteiros, em todas as árvores, em todos os bichos, em todas as pessoas. Mal posso esperar para lavar os edredons e guardar o casacão que já chega sozinho aos lugares. E se – pode acontecer – vieres menos amena do que o esperado, prometo não reclamar. No máximo, suando (que saudade), comentarei no elevador: mas e essa primavera, hein? No meu tempo, ah, no meu tempo, ela era muito mais fresquinha. Alguém aí me empresta um leque?

Vem logo, por favor.

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Venezuelanos, haitianos, senegaleses, sírios, pessoas que procuram por segurança e condições de vida mais dignas. A advogada e professora Laura Madrid Sartoretto está lançando uma obra fundamental para se entender essa grande crise humanitária que o mundo está vivendo: Direito dos refugiados: do Eurocentrismo às Abordagens de Terceiro Mundo. Lançamento no dia 15 de setembro e informações e pré-venda no site da Livraria Arquipélago.

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