Claudia Tajes: Quando a desgraça tem graça

(Reprodução)
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No último domingo, vendo pela TV aquele desfile de homens esticados, cabelos bem pintados de acaju ou então negros como a asa da graúna – expressão que só os mais antigos entenderão –, nossos homens públicos que, com raras exceções, fizeram um papelão com seus discursos ridículos diante das câmeras, todos sedentos por 15 segundos de glória, pensei no trabalhão que o Sensacionalista teria, no dia seguinte, para pensar em piadas sobre tanta piada sem graça.

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Sensacionalista, se alguém não souber – é o jornal online que faz humor de alta qualidade em cima da melhor de todas as matérias-primas: a realidade. Só que em lugar de simplesmente reproduzir o pastelão que hoje vivemos, o pessoal do jornal diverte os leitores, e se diverte, recontando os fatos com crítica, ironia e inteligência. Daí, claro, a versão deles fica muito mais interessante do que a oficial.

Pela quantidade de notícias que produz, o Sensacionalista parece sair de uma grande redação. Na verdade, são apenas quatro pessoas que fazem tudo – inclusive dar conta de muitos outros trabalhos além do jornal. Falei com a Martha Mendonça, a guria da equipe ao lado do inventor da ideia, Nelito Fernandes, e mais Marcelo Zorzanelli e Leonardo Lanna. Carioca, dois filhos e uma enteada, jornalista, escritora com cinco livros publicados e o sexto saindo em junho, roteirista de séries como Canalhas (baseada em um de seus livros e que virou série do GNT) e do novo Zorra, da TV Globo, autora de peças de teatro, a Martha, por acaso, é casada com o Nelito. “Mas eu juro que não virei sócia do Sensacionalista por nepotismo. Desde que o bicho foi criado, sempre dei pitacos, até, alguns meses depois, entrar formalmente para a turma.”

(Divulgação) Sensacionalista agora em livro

(Divulgação) Sensacionalista agora em livro

A Martha gosta tanto de escrever que tem o ideograma “palavra” tatuado nas costas. “Ou pelo menos eu acho que significa isso, mas também pode ser ‘otária, te enganei’.” Jornalista em redações “sérias” por 20 anos, descobriu a internet em 2001. “Foi quando inventaram os blogs e criei o Elas por Elas com uma jornalista amiga. Foi um blog bem popular, onde contávamos histórias femininas – e anos depois virou livro. Tomei gosto pela coisa e fui em frente, escrevendo mais e diversificando os canais.”

E como surgiu o Sensacionalista? “Nossas notícias circulavam mais entre amigos, com as redes sociais ainda arrebanhando números modestos. Houve momentos em que, enrolados com outras atividades, ficávamos meses sem postar. Em 2014, ano de Copa do Mundo e Eleições Gerais, resolvemos voltar. Aí a coisa explodiu. O Fla X Flu político e a força do Facebook nos alçaram a campeões de audiência. Hoje temos 10 milhões de visitas por mês e quase 2 milhões e meio de seguidores no Facebook. Depois que a crise política se acirrou, nos últimos meses, com condução coercitiva, grampos etc, fomos tão compartilhados e incensados que viramos matéria da imprensa nacional, além de Le Monde, Forbes e BBC. O que mostra que o New York Times definitivamente perdeu o bonde da história! Acabamos de lançar também o nosso livro, que traz as melhores manchetes destes anos: “‘Comprar um livro que está na internet é sinal de genialidade, dizem especialistas’.” O livro saiu pela editora gaúcha Belas Letras.

A pergunta mais palpitante do momento não político, mas doméstico: e que tal é trabalhar com o marido? “Nem sempre é tranquilo, mas está funcionando há quase 12 anos. Além disso, já nos conhecemos trabalhando juntos, na mesma revista, então não sabemos como seria outra realidade. A teoria dos casamentos diz que é ruim, mas acho que deve ser bom, porque estamos sempre na mesma vibração e ninguém fica chateado pelo fato de o outro estar trabalhando. E o melhor de tudo é que, fazendo humor, rimos muito juntos – o que eu acho que é meio caminho andado pra ser feliz.”

A sabedoria popular diz que um dia a gente vai rir disso tudo. Enquanto essa hora não chega, o jeito é ler o Sensacionalista.

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