Claudia Tajes: “Quando a gente pisca, já é adulta. O papel de cobrar, repetir e chatear agora é nosso”

Um futuro com mais alegria para meninas, meninos e adultos também I Foto: Reprodução
Um futuro com mais alegria para meninas, meninos e adultos também I Foto: Reprodução

Primeiro a gente era criança, algumas crescendo na tranquilidade de uma boa condição econômica, outras remediadas, outras tantas sem uma casa sequer – e, muitas vezes, sem ninguém. Devia ser proibido passar a infância assim. Como criança não é obrigada a se informar sobre o que pode ou não pode com o salário dos pais, a maior parte delas quer tudo o que vê pela frente. Bala, chocolate, carrinho, bola, boneca, bicicleta, celular, computador, videogame, games, patinete elétrico, outro videogame, mais games e etcetcetc. Cada ida ao shopping é um exercício de paciência para a mãe. Nessas ocasiões, uma amiga aproveita para dar lições sobre consumo consciente para o filho, um toquinho de três anos que não apenas não entende nada, como entra correndo na primeira loja e pede mais alguma coisa.

Depois a gente era pré-adolescente, fase que os pais têm certa dificuldade para identificar. O começo da revolta dos hormônios passa por mais uma criancice. Para de incomodar, criatura, quer ficar de castigo? Não, tudo o que não se quer nessa idade é ficar de castigo. Um pré-adolescente típico sonha com a porta da rua aberta, sonha em ir para a casa dos amigos sem hora para voltar, sonha em dormir de madrugada, sonha com um guri ou uma guria, sonha com todo um universo até então proibido e que, embora continue proibido, já pode ser vislumbrado. E parece bem mais interessante que brincar de Comandos em Ação.

Então a gente era adolescente e não tinha mais como os pais ignorarem tantos sintomas. Um dia haveria de acontecer. As roupas que a mãe até então comprava de repente ficaram quadradas, caretas, horríveis. Sair com uma blusa escolhida por ela? Melhor ficar em casa. Não, ficar em casa é a pior das tragédias quando se é adolescente. É como se o mundo inteiro estivesse se divertindo, menos nós. E as festas para as quais não se é convidada? Ou ser convidada e não ter roupa para ir? Usa aquele teu vestido bordô. Aquele vestido de velha que todo mundo já viu? Mais tarde, bem mais tarde, algumas entenderão que repetir roupa não acaba com a reputação de ninguém. Pelo contrário, como diria a minha amiga que tenta ensinar consumo consciente ao filho de três anos. E dê-lhe pai e mãe a cobrar, repetir, chatear.

Quando a gente pisca, já é adulta e – não que seja obrigação – se vê com as próprias crianças para amar. E para cuidar, para alimentar, para levar à escola, tudo com mais ou menos dificuldades, dependendo de como cada um consegue se virar na vida. Do lado de fora, mais e mais crianças continuam sem casa e, muitas vezes, sem ninguém. Devia ser proibido passar a infância assim. O papel de cobrar, repetir e chatear agora é nosso. Quando o filho diz que a mãe é mala, é de mim e de você que ele fala – logo de nós, tão queridas e compreensivas. A voz está mais grossa, o pé ocupa metade do sofá e a palavra privacidade é levada às últimas consequências quando se trata da privacidade dele, mas talvez o sinal definitivo de que a sua criança cresceu é quando ela declara que não quer mais ganhar presente de Dia das Crianças. Como assim, não quer mais?

Não adianta dizer que, para a mãe, o filho sempre vai ser criança. Rejeitando o presente, antes tão esperado, ele rompe com sua última concessão ao mundo infantil – que talvez até fizesse por um inocente interesse. Já que ninguém está aqui para criar um ser imprestável e boboca, desses com corpo de adulto e cabeça de 10 anos como existem tantos, o jeito é entubar a independência da ex-criança e seguir em frente. No Dia das Crianças dos filhos que não são mais crianças, agora resta torcer para que os dias do futuro não sejam escuros e turbulentos. Para eles, para todas as crianças e para a gente também.

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