Claudia Tajes: Quando o Macedo dá a previsão de carros na freeway, sinto até um certo remorso

Foto: Theo Tajes
Foto: Theo Tajes

Cem mil carros pegando a freeway para um fim de semana na praia. É carro que não acaba mais. Engarrafamento, criança perguntando de cinco em cinco minutos se falta muito, motorista espertinho costurando na estrada e encurtando distâncias irrisórias – diante do quadro – ao andar pelo acostamento, espera para pagar o pedágio, falta de troco no pedágio, o pai que quer ouvir samba e a filha que quer ouvir funk, o dono do carro que obriga os caronas a ouvirem as músicas de que só ele gosta, alguém que pede para fazer xixi bem quando a procissão flui um pouco, aquele que quer parar para um pastel com caldo de cana, a Estrada do Mar em fila indiana e então, depois de três horas, na melhor das hipóteses, a praia. O coração aperta ao pensar na hora da volta, fim do domingo ou segunda cedinho, que horário será menos pior?

Apesar de não estar morando em Porto Alegre, acompanho o que acontece aqui com uma urgência que beira o vício. Se fico um turno sem notícias do Sul, me sinto em outro planeta. E mais: peguei a mania de acordar pelas cinco e pouco só para ouvir o resumo da noite e as primeiras do dia no programa do Antônio Carlos Macedo – ou Mais Cedo, como diz a minha irmã, também ouvinte. Um elogio sincero à equipe do programa, que levanta de madrugada para trabalhar com um bom humor que muita gente que acorda às 10h não tem. Fato é que na sexta, quando o Macedo dá a previsão do número de carros na freeway, sinto até um certo remorso. Atualmente, basta andar duas quadras e estou na praia. Onde quase não vou.

Aquela fantasia de que, morando no Rio de Janeiro, todo mundo vive na praia entre um turno e outro da firma, no antes e depois das aulas, em qualquer intervalo que pinte, bem, é fantasia. Ou então a criatura é surfista. As pessoas trabalham muito nos trópicos escaldantes. Bares e restaurantes não fecham nunca, supermercados vão até tarde da noite, lojas de rua estão sempre abertas, a maior parte dos serviços atende sem descanso. A praia acaba sendo de quem pode: visitantes, caminhantes, atletas, senhores e senhoras bronzeados e dispostos, bebês e, claro, do Renato Portaluppi nas merecidas folgas dele. Tem dias de semana em que Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon viram propriedade de poucos, literalmente espraiados por uma extensão que não cansa de ser linda. Mas com muitos ou poucos banhistas, quem não falta jamais, de domingo a domingo, são os ambulantes. Incontáveis deles.

Vendedores de biscoitos Globo e Mate Leão existem às centenas. De (quase) roupas, também. Biquínis, calções, cangas, shortinhos, vestidos, chapéus, saiotes, os argentinos vão à loucura com a quantidade de opções. Alguns vendedores levam junto um provador ambulante, geringonça que é montada na areia com um espelho para a freguesa se mirar melhor. Imagina carregar aquilo tudo para lá e para cá, pisando na areia fofa e sob um sol que torra sem dó.

Caipirinhas feitas com todas as frutas que existem. Pastéis. Os indefectíveis sanduíches naturais. Gordos camarões no espeto. Queijo coalho. Lanches árabes vendidos por homens e mulheres a caráter, de túnica e lenço palestino. Sorvete Itália. Pipas e aviõezinhos. Planondas. Boias. Bolas. Raquetes de frescobol. Poltronas de inflar. Cangas. Toalhas. Bijuterias. Tatuagem de henna. De uns tempos para cá, os vendedores senegaleses se juntaram aos ambulantes nativos com seus tabuleiros lotados de relógios, óculos de sol, paus de selfie e outras tralhas reluzentes. Faz sucesso um porta-celular de plástico para pendurar no pescoço, como se fosse um crachá. Assim fica mais seguro mandar mensagens e fazer selfies com a mão molhada e besuntada de protetor solar. O vendedor de sacolé passa berrando: vamos chupaaaaaaaar!

Uma coisa que não se vende mais na areia é jornal. Não há um jornaleiro entre tantos vendedores. Em um desses dias de pouca gente na praia, estava lá com o meu filho, cada um lendo o seu livro. Um homem magro, pele curtida, se apresentou para nós como livreiro – e nos deu os parabéns. Disse que éramos os únicos leitores em toda a praia. Perguntei que livros ele tinha para vender. O homem respondeu que, no momento, nenhum. Vendia os volumes que sobravam dos turistas que partiam, mas o pessoal quase não trazia mais nada para ler. O negócio estava em baixa. Pediu os nossos livros como doação para não ir de mãos abanando para casa. Meu filho afundou a cara nas páginas dele para não precisar responder. Eu mal havia começado o meu recém comprado Crônica do Pássaro de Corda, do Murakami. Fui obrigada a negar a doação. O homem ainda pediu algum dinheiro, que a gente não tinha. Sentou perto e ficou nos vendo ler, talvez na esperança de que mudássemos de ideia. Não mudamos.
Sessenta mil carros devem encarar a freeway na sexta, fala o Macedo. Sendo assim, valorizarei o que a vida me deu. Amanhã vou à praia.

Leia mais colunas da Claudia:
:: Infelizmente, a grosseria é democrática
:: Letra bonita é só para agradar professora
:: Resposta à carta que demorou, mas veio

Leia mais
Comente

Hot no Donna