Claudia Tajes: Que capacidade ímpar de ofender com classe o excelentíssimo ministro Barroso possui

Foto: Félix Zucco
Foto: Félix Zucco

São poucos, mas existem. Para alguns gatos pingados que conheço, bem que gostaria de dizer, olhando nos olhos, de cabeça erguida e diante de um bocado de testemunhas: você é uma pessoa horrível. Se é que o ministro Barroso não chegou com aquele texto decorado de casa, como aventou um amigo, que capacidade ímpar de ofender com classe o excelentíssimo possui. Que bom uso da língua para um propósito considerado pouco nobre. Nos ambientes que frequento, nas – felizmente – raras vezes em que se armou um barraco, os xingamentos foram muito diferentes.

Vai te aquilo, filho daquilo.
Ouvindo o ministro Barroso, a gente percebe que palavras bonitas com verbos bem conjugados ofendem muito mais do que um vulgar “vai tomar naquilo”.
Mistura de mal com atraso.
Pitadas de psicopatia.
Bílis, ódio, mau sentimento, mal secreto.
Vossa Excelência é uma desonra.

Também tive meu dia de ministro Barroso em outra vida, na adolescência, quando o pai sempre rude de uma amiga rica – nós, os remediados, sempre tínhamos uma colega de aula rica que convidava para a piscina em sua casa – recomendou para mim e outro amigo, quando estávamos de saída: levem só o que é de vocês. Lembro direitinho de me subir o sangue. Com a verve digna de um ministro, respondi:
– A grosseria é apenas mais uma das desqualificações do seu caráter.

Mais tarde, contando o acontecido para meus pais, não fui compreendida. Devia mandar esse mal-educado se %*&+@+, exaltou-se meu pai. Devia chamar o desgraçado de %*&+@, disse minha mãe.
Tivessem eles estimulado minha finesse para ofender, quem sabe eu não estaria agora no Supremo Tribunal Federal, com auxílio-moradia, demais benesses do cargo e nada dos perrengues de hoje. Ah, as oportunidades perdidas.

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Ipanema, cinco da tarde, 36 graus nos termômetros de rua.
Na loja, botas que sobem pela perna até muito acima do joelho. Do lado de lá da avenida, a praia lotada como se fosse domingo.
O vestido que custa o preço de um carro popular, todo trabalhado nas peles, chama a atenção da senhora que caminha de maiô pela calçada.
Na vitrine decorada com fotos dos alpes nevados, o manequim entrouxado se equilibra em um esqui meio torto. Meninas e meninos com cabelos molhados passam segurando suas pranchas de surfe.
Duas amigas comentam: esse casaco é maravilhoso, mas só viajando para algum lugar muito frio para usar. Na loja ao lado, o casal de algum país nórdico compra pares e mais pares de chinelos antes de voltar para suas temperaturas abaixo de zero.
A coleção Outono-Inverno já chegou no Rio de Janeiro. Nem que seja para a gente apreciar as vitrines suando na calçada.

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Vai parecer jabá, mas é utilidade pública. Da última vez em que usei o pacote de dados da operadora em viagem ao Exterior, a conta foi uma mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia. Daí apareceu um tal de chip que a gente compra antes de viajar, coloca no celular e fica acessando e-mail, usando whatsapp e entrando nas redes todas sem limite – e sem tomar um tufo depois. O meu comprei na Casa de Turismo e valeu muito. Ou melhor: valeu deveras.

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