Claudia Tajes: Quem é essa pessoa no espelho?

Não sei se acontece com todos os que já viveram muitas coisas, eufemismo para dizer que não se cozinha na primeira e talvez nem na segunda fervura. Mas a cada manhã me surpreendo com o quanto a imagem no espelho não se parece com o que eu lembro de mim.

Em volta dos olhos, existem rugas que nem perturbam, mas o que envelhece mesmo é o jeito de olhar. Onde foi parar a ilusão – que faz tanta falta quanto o colágeno? Não ter mais a absoluta certeza de que tudo vai dar certo é uma das chatices do amadurecimento. Isso e as dobrinhas que se formam ao lado da boca, aquelas que desafiam os cremes e os procedimentos. Em compensação, dizem, a miopia regride com a idade. E por que isso seria vantagem quando existem óculos tão bonitos, lentes de contato e cirurgias que ficaram simples?

Com o tema do envelhecer sempre na pauta, ganho de presente um livro sensacional: Mal-entendido em Moscou. Escrita em 1966/67 e publicada no Brasil quase meio século depois, a novela de Simone de Beauvoir fala de um casal de mais de 60 anos que, em visita à filha do primeiro casamento do marido, tem um desacerto que pode significar seu fim. Em 142 páginas que passam voando, Nicole e André alternam seus pontos de vista sobre os mesmos assuntos, a velhice sempre entre eles. Só para dar vontade, alguns trechinhos.

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Mulher sente o peso da idade. Será mesmo ficção?

“Quando um homem leva suas malas, é porque você é uma mulher; se é uma mulher que as leva, é porque ela é mais jovem que você, e você se sente uma idosa.”

“Aos 50 anos, suas roupas lhe pareciam ou tristes demais ou muito alegres. Agora, ela sabia o que lhe era permitido ou proibido, e se vestia sem preocupação. Sem prazer também. Aquela relação íntima, quase terna, que antes tinha com suas roupas, não existia mais.”

“Estamos na flor da última idade, dizia André.”

“André não desejava mais ser atraente, mas que ao menos, ao vê-lo, fosse possível imaginar o quanto o havia sido no passado! E não se tornar um ser inteiramente assexuado. Ele mal começava a se habituar à sua condição de adulto e já seria lançado à de velho. Não!”

De Nicole sobre a briga com André: “É tão cansativo detestar alguém que se ama”.

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Simone de Beauvoir e o maridão, Sartre, nas areias de Copacabana

“Ele não via a vida como Montaigne, como uma sucessão de mortos: o bebê não é a morte do embrião, nem a da criança é a do bebê. (…) Ele recusava com veemência a ideia de Fitzgerald: a vida é um processo de degradação. Não tinha mais seu corpo dos vinte anos, sua memória falhava um pouco, mas não se sentia diminuído.”

De minha parte, já encomendei toda a obra de ficção da Madame de Beauvoir. E não sei não, mas acho que as dobrinhas ao lado da boca até deram uma leve melhorada depois dessa leitura. O livro certo na hora certa, não é que isso rejuvenesce a pessoa?

Pelo quinto ano e sempre com a curadoria da Prana Filmes, o Santander Cultural apresenta a mostra Consciência e Sustentabilidade. Durante todo o mês de abril, 15 documentários e longas de ficção sobre temas como alimentação, religião, saúde, natureza, controle populacional e outros assuntos para fazer pensar sobre esse mundão que a gente nem sempre respeita. Programação no Facebook. 

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Filme no Santander: você também é o que não come

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