Claudia Tajes: Quer xingar, xinga certo

Meu amigo estava com a namorada no posto aquele da Casemiro, esperando para estacionar enquanto um outro carro desocupava a vaga. Pisca ligado, tudo direitinho. Nisso outro motorista chegou, não viu o meu amigo esperando e parou em posição de esta vaga é minha. Só que o meu amigo estava mais perto, e em posição há mais tempo, e estacionou antes. Foi o que bastou para o sujeito abrir o vidro do carro e gritar: corno!

Se partirmos da definição popular de que corno é o homem enganado pela mulher, é de se perguntar: mas por que ofender alguém atacando outro? No caso, outra, a namorada do meu amigo, que estava ali, na boa, sem incomodar ninguém. O Gregório Duvivier já escreveu – e muito bem – sobre os xingamentos que têm por alvo uma suposta “devassidão” da mulher. Quer ofender uma moça? É só chamar de puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, periguete. Dentro da mesma lógica, o esquentadinho que xingou o meu amigo pode nem ter feito por mal, mas lá do fundo, daqueles conceitos que a gente traz fincados em algum lugar obscuro, veio a ordem: para ofender um homem, ataque o que ele tem de mais precioso, a própria honra. Corno.

Na mesma linha, o Gregório continua: “Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino”. A Dilma, e sem entrar no assunto do governo dela, era chamada de tudo isso. Mas nunca ninguém disse que “o Lula embarangou”. Tirando o Cerveró, com aquela peculiaridade difícil de não se notar, nenhum dos denunciados da Lava-Jato teve seus atributos físicos questionados. Ou melhor: na lista do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht apareceu o Todo-Feio, deputado que se ofendeu quando o apelido dele foi divulgado. Já a única mulher da lista tinha a alcunha, adivinha, de Feia.

E isso que ainda nem falamos da mais clássica de todas as ofensas dirigidas a um cidadão: FILHO DA PUTA. Para atingir o alvo, ataca-se a santa mãezinha dele. É como se o homem saísse ileso sempre. E aqui entra mais um trechinho do Gregório Duvivier só para lembrar que o xingamento é livre, mas que convém xingar certo. “Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os veados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa”.

Lembra da Aldeia da Fraternidade, que teve os instrumentos musicais roubados no mês passado? Foram violões, violinos, flautas, clarinetes, equipamentos e uma televisão de 42 polegadas, material que era usado pelas 240 crianças que a entidade atende no projeto Educando com Arte. O prejuízo material só não foi maior do que a decepção da criançada. Quem quiser ajudar a Aldeia a recomeçar tem uma boa oportunidade neste domingo, dia 12. O evento Música e Solidariedade será realizado na loja Openstage, na Otto Niemayer, 2.415, das 14h às 22h, com shows do Nenhum de Nós, Oly Jr., Paulo Inchauspe e muitos outros artistas. Camisetas, CDs e DVDs estarão à venda com renda revertida para a entidade. E também dá para levar aquele instrumento que está aposentado em casa, e que vai ter muito uso se a gente doar.

Foto: divulgação

Para acalmar: a Aldeia da Fraternidade espera as nossas doações | Foto: divulgação

E para acalmar de vez: o poeta nenung lançou o lindo livro de poesia desCABIMENTOS, à venda apenas em nenung.blogspot.com.br. E até 23 de abril o Margs apresenta 51 releituras da obra Fonte, de Marchel Duchamp, que agora completa cem anos. Arte que fica.

Pra ficar zen: livro novo com a poesia do nenung | Foto: Claudio cunha, DNFM

Pra ficar zen: livro novo com a poesia do nenung | Foto: Claudio cunha, DNFM

Para apreciar: releituras de Duchamp até 23 de abril na cidade | Foto: divulgação

Para apreciar: releituras de Duchamp até 23 de abril na cidade | Foto: divulgação

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