Claudia Tajes: Reaproveitar é preciso

O lustre do bar Ocidente: a Coca-Cola nunca imaginou essa diversidade | Foto: Diogo Carvalho, especial
O lustre do bar Ocidente: a Coca-Cola nunca imaginou essa diversidade | Foto: Diogo Carvalho, especial

Louco de vontade de comer um doce, o filho dá uma busca e apreensão na geladeira. Começa pelo freezer e, grata surpresa, vê três potes de sorvete que não estavam ali algumas horas atrás. Pega o pratinho e a colher, porque comer direto do pote é briga na certa em caso de flagra, abre o indefectível Napolitano e o que tem lá dentro? Feijão congelado. Ainda com alguma esperança, abre o de flocos e fica cara a cara com um ex-caldo, agora gelo maciço, onde outrora boiaram ingredientes de sopa – atualmente, pedras. Já sem perspectivas, abre o pote de creme e encontra algo impossível de se identificar, talvez um pedaço de lasanha, presente da gentil vizinha de baixo. Quem nunca?

Comida congelada em pote de sorvete é um clássico das famílias. Por mais que se compre Tupperware na vida – e houve um tempo em que as mães compraram muito, entretidas em chás de venda de cumbucas de plástico –, sempre falta um pote para congelar a lentilha ou o estrogonofe. Sempre. O jeito é guardar na embalagem do sorvete Carioca, que não foi para o lixo justamente para alguma necessidade: esta.
O reaproveitamento é uma das regras de ouro do lar. É mais, muito mais do que um irmão herdar a roupa do outro ou o livro do colégio da maior passar para a menor.

O reaproveitamento é a arte de transformar o que parecia sem serventia em algo, digamos, reaproveitado. Quando o leite vinha em saquinhos, alguma pioneira cortou o plástico em tiras e fez com ele bolsas, carteiras, guardanapos, capachos, descansa-pratos e até abajur de crochê. Em vez da mochila da Company, a sacolinha da Corlac. Na mesma linha, hoje se usa a garrafa pet para fazer de brinquedo de criança a conjunto de copos, tampinha é revestimento e bijuteria, garrafa de vinho vira apoio de estante. Garrafa, aliás, é matéria-prima para a criatividade. Já repararam no lustre de Coca-Colas do bar Ocidente, imponente como os cristais do Theatro São Pedro?

O arroz de ontem é o bolinho de amanhã. O churrasco do meio-dia é o carreteiro da semana. O tomate da salada, murchinho no dia seguinte, estrela o molho da massa. Tudo vira tudo na cozinha e, se a/o cozinheira/o tiver atitude, ela/e pode virar chef com as suas invenções.

O CD que jamais será ouvido é perfeito para apoiar copos. A escova de dentes velha é promovida a melhor instrumento para desencardir rejunte de azulejo. Os vidros de massa de tomate formam conjuntos de copos. Não por acaso, quando a marca do Jotalhão dominava o mercado, eles eram conhecidos por cristal Cica.

De todos os reaproveitamentos, o mais radical era o que transformava as cuecas velhas dos pais em panos de limpeza para os mais variados fins: lavar o chão e os vidros, lustrar os móveis, encerar o piso, dar um brilho nos sapatos e muito mais. A cueca sem elástico, onipresente na casa e tão versátil quanto o Bombril, ainda servia para lavar o carro. Guardada no porta-luvas, o trapo de algodão listradinho se mostrava ideal também para esfregar as mãos sujas de graxa depois de trocar o pneu.

Um aparte aqui para o reaproveitamento de pessoas. Ex-casais que não funcionam mais como pares viram amigos e vivem felizes para sempre. Quem não conhece vários exemplos assim?

Em busca de um modo de vida mais racional, hoje as pessoas promovem o reaproveitamento como se novidade fosse. Na verdade, esse conceito vem lá das nossas mães e avós, que não jogavam nada fora impunemente. Naquela época, ninguém gostava muito de herdar o vestido da prima, mas agora é cool comprar um casaco que já vestiu outro alguém nos briques de desapego. Sustentáveis mesmo eram elas. Demorou um pouco, mas enfim a gente aprendeu a lição.

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