Claudia Tajes: respeitem nossos cabelos pintados

Foto: AFP
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Aos poucos a gente vai entendendo que certas palavras que usava para se referir aos outros, quem diria, não eram tão inofensivas quanto pareciam. Ninguém chamava o colega de trabalho de gordo para ofender embora só chamasse assim nas costas dele. Na frente, síndrome de Falsiane: gordo, nada, os teus ossos é que são pesados.

Eram os tempos do politicamente incorreto, das piadas preconceituosas contadas no meio da empresa, dos apelidos de mau gosto que grudavam e, em geral, trocavam de colégio ou de emprego junto com a vítima. Muitos apelidos cruéis selaram destinos. Acho que isso, felizmente, mudou. Não que pensar duas vezes antes de chamar a menina do departamento pessoal de vaca vá deixar o mundo melhor, mas deixa um pouco menos grosseiro.

Até nos estádios, templo dos sentimentos exacerbados, o pessoal anda se esforçando para abolir certos xingamentos – nem que seja por medo da punição aos clubes. Se não vai por bem, vai por mal. Já o trânsito segue ignorando padrões mais civilizados. Em algum momento, no papel de motorista, pedestre, ciclista, skatista, motoboy ou o que for, virá um “corno”, “piranha” ou “veado” na nossa direção.

Agora, tem uma categoria que não foi atingida pela forma mais jeitosa de se dirigir ao outro. No caso, à outra. Falo das mulheres dos seus 50 anos para mais.

Mulher que abandona a faixa dos 40, por mais que esteja em plena atividade e se sentindo ótima, ainda é chamada de velha. Ou não é isso que diz uma reportagem que encontrei na internet: “Mesmo aos 70 anos, Susan Sarandon mantém o corpo em forma”. Precisava daquele MESMO no título?

Tem muito mais. Falando de uma atriz para fazer par com ele em uma peça, um ator – mais velho que a atriz, diga-se – decretou: fulana é maravilhosa, mas está velha. Um legítimo caso de transtorno de imagem. O cidadão deve se olhar no espelho e enxergar o galã que foi um dia.

A filha de uma amiga, aluna de Engenharia: a veia de cálculo (tradução: a professora) marcou duas provas seguidas. Só por curiosidade, perguntei a idade da veia. “Sei lá, uns 40 e poucos”. Se bem que, nessas circunstâncias, até dá para entender. Aos 20 anos, o conceito de veia fica, de fato, amplo.

De um cabeleireiro em um programa de TV: depois dos 50, toda mulher deve cortar o cabelo para ficar mais elegante. Já regulam tanta coisa na vida da gente, vão se meter no penteado também?

De um funcionário obrigado pela chefe a refazer um relatório: quem essa velha pensa que é?

Em uma rodinha de café, comentando sobre alguma senhora cheia de atitude: a velha pensa que é guria.

Um diretor de programa de TV pedindo ideias para a equipe: só não me venham com uma protagonista velha!

Na rua, a loira com mais de 60 e que nem por isso abandona o salto, a maquiagem e as roupas pretas que sempre vestiu, ouve um “galanteio”: essa velha ainda dá um caldo.

O atual presidente da França, Emmanuel Macron, 39 anos, surge com a mulher de 64 com quem é casado desde 2007 e já começam as suspeitas: casou com a velha para disfarçar que é gay, só pode.

E assim a vida segue nessa estranha sociedade do eternamente jovem, em que idade parece não combinar muito com vaidade, curiosidade, produtividade, sexualidade, felicidade. Mas só parece. Contra esse pensamento velho, minha amiga, o jeito é a gente se manter firme. Porque firmeza, felizmente, não significa só colágeno. Mas não mesmo.

De um cabeleireiro em um programa de TV: depois dos 50, toda mulher deve cortar o cabelo para ficar mais elegante. Contra esse pensamento velho, minha amiga, o jeito é a gente se manter firme. Porque firmeza, felizmente, não significa só colágeno.

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