Claudia Tajes: Respeito, esse desconhecido

O estudante tinha pressa, a professora pediu uma entrevista e ele esqueceu de fazer. Depois das perguntas regulamentares, uma cabeluda: conte uma vez em que você desrespeitou o direito de alguém. Caramba. Que difícil. Dá para pensar mais? Não, a entrega é agora. Então, lá vai.

Minha mãe gostava de cantar. Mais que isso, adorava. Era desafinada, o que não a impedia de trinar sem pudor algum, tons e meio tons se alternando até chegar ao agudo absoluto. Nunca quebrou nenhum cristal, mas por culpa dos cristais. Ela bem que se esforçou.

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Assistíamos ao Globo de Ouro e a seu desfile de cantores da época mexendo a boca para fazer de conta que interpretavam. Eu ainda não conhecia o playback, foi um golpe descobrir essa falsidade da vida. Minha mãe não economizava no pulmão, cantava alto, muito mais alto que os artistas da televisão. Nas minhas lembranças, todas as músicas vêm na voz dela, de Lady Laura a Feelings, de Alegria, Alegria a New York, New York.

(Reprodução/Instagram) Fonezinhos da Rihanna. Será que ela vê TV com a mãe?

(Reprodução/Instagram) Fonezinhos da Rihanna. Será que ela vê TV com a mãe?

Aí começa a parte da falta de respeito. Nós, os filhos, simplesmente não suportávamos aquela cantoria. Enquanto a mãe solfejava, a gente tapava os ouvidos, pedia para parar e, vez por outra, até vaiava. Queríamos ouvir o Kleyton & Kledyr, não a mãe. Com o tempo ela foi cantando menos, acho que cansada dos nossos protestos. Só depois, já viúva e morando sozinha, é que voltou a cantar bem alto e por todos os cômodos da casa. Na última noite, no hospital, meu irmão e eu cantamos várias músicas com ela. E justiça seja feita: até que a mãe era bem afinadinha.

(Foto: João Marcelo Osório) Ciclistas e corredores: tem espaço pra todo mundo

(Foto: João Marcelo Osório)
Ciclistas e corredores: tem espaço pra todo mundo

Essa história é só um exemplo da batida expressão “o direito de um termina onde começa o direito do outro”. E o desrespeito pelo direito do outro anda comendo solto nesses dias. Agora mesmo um sujeito desconhecido que havia me adicionado no Facebook publicou alguns desaforos na minha página. Em seguida me excluiu. Um covarde típico, aquele que diz o que quer, mas foge na hora de aguentar a resposta. Muito pior, claro, são as ofensas racistas que várias atrizes negras sofreram nos seus perfis. E os ataques no instagram, FB, twitter e etc a quem assume uma posição política em público? É como se alguém invadisse a casa da gente e partisse para a ignorância.

Caso feio que vi na semana passada, no calçadão do Leblon. Um senhor aparentando bem mais de 70 anos passou correndo, compenetrado no seu exercício. De repente, um barulho seco e o senhor já estava caído, enquanto um ciclista dos seus 18 anos gritava com ele. O que aconteceu: ao passar pelo ciclista, o senhor teria se desequilibrado e tocado na bicicleta, que deu uma oscilada. Como reação, o rapaz empurrou com força o homem que corria tranquilo, ouvindo sua música, sem incomodar ninguém. Ajudamos o senhor a levantar enquanto o ciclista seguia xingando, cheio de razão. Ele enxugou o sangue dos machucados e continuou sua corrida acompanhado pelos berros do outro. A pergunta que ficou pelo resto do dia – e até agora: mas foi para isso que chegamos até aqui?

— Tá, mas o que eu boto na entrevista?

(Foto: Theo Taje) E, depois de tudo, o dia termina assim no Leblon

(Foto: Theo Taje) E, depois de tudo, o dia termina assim no Leblon

O que era para ser rápido virou um assunto inteiro sobre desrespeito. Bota a história da minha mãe, eu disse. Não teria uma mais atual? Deve ter, mas prefiro não lembrar. Meio contrariado, ele me informou que mandaria um whats se faltasse alguma coisa. E completou: mas não demora para responder porque eu não posso ficar esperando.

Ia falar algo sobre o cachorro fazer xixi no poste, mas deixei por isso mesmo. Se o meu entrevistador não sair empurrando velhinhos por aí, tudo ainda estará bem.

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