Claudia Tajes: Resposta à carta que demorou, mas veio

Foto: Claudia Tajes
Foto: Claudia Tajes

Esta coluna começa lá por março de 2017, quando a professora de Literatura e Redação Viviane Forcellini Domingues, da Escola de Educação Básica da URI, de Erechim, mandou um e-mail falando de uma atividade proposta por ela em aula: cada um dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio escolheria um autor para enviar uma carta. Carta mesmo, escrita à mão, com selo e ida ao Correio para despachar. Coisa que raramente a gente faz.

A profe Vivi contou que uma das alunas havia me escolhido. E pediu que eu não deixasse a menina sem resposta. Se mandar um e-mail e ficar no vazio já é o fim da picada, imagine não tratar com o devido cuidado uma carta enviada de longe. Claro que garanti para a Viviane que a resposta não demoraria. E então a vida continuou com as suas exigências & urgências & emergências & premências, chateações que acabam fazendo com que a gente não se dedique ao que de fato importa.

Logo em seguida ao contato da Viviane, mudei de endereço. Na verdade, fui para um apartamento centímetros maior no prédio ao lado. Não havia como a correspondência se perder, meu ex-porteiro até ganhava uma caixinha para me entregar as contas de telefone, luz, gás e etc. Não sei se acontece com todo mundo, mas para mim é só isso que o carteiro traz. Não teria como perder a carta da Ana Júlia, ela brilharia no meio dos envelopes sem graça do banco ou de um plástico da Seleções com um chaveiro dentro para me convencer a assinar a revista. Onde quer que eu esteja, a Seleções me encontra e quer que eu faça uma assinatura.

Fato é que a carta da Ana Júlia não chegou. Então, tantos meses depois, abro a caixinha de correspondência e lá está ela, entre contas diversas e folhetos anunciando um buffet a quilo, uma lavanderia e uma boate.

A carta da Ana Júlia, com data de 07 de abril de 2017.

Aos 17 anos (será que já fez 18?), a Ana Júlia deve agora estar se preparando para as provas finais e estudando para o vestibular. Ela escreveu que ama literatura, arquitetura e viagens. Será que vai passar os próximos anos na faculdade ou decidiu conhecer esse mundão?

Ana Júlia, não sei se o Correio continua em greve. Para não atrasar mais a resposta, faço uma imitação canhestra do Chico Buarque e te escrevo aqui pela página – cometendo alguns versos, ainda por cima. Conhece a música Meu Caro Amigo, que o Chico mandou em 1975 para o diretor de teatro Augusto Boal, que vivia exiliado em Lisboa? Olha a pretensão, foi nela que me inspirei. Sem talento, mas com afeto.

Querida Ana,
a vida aqui segue em pedaços:
todo mês, o salário é parcelado,
seja no município ou no estado.
Quando os filhos saem pra rua,
dá sempre um aperto no peito.
A violência só aumenta,
não há polícia que dê jeito.
Saúde, educação, cultura?
O país todo anda parado.
Investimento, hoje em dia,
é compra de deputado.

Pensando bem, melhor parar por aqui. Para não te deixar desanimada, Ana Júlia, tenho uma boa notícia: começou a Feira do Livro de Porto Alegre, com uma programação que vai trazer vários autores nórdicos e também Mia Couto, o prêmio Nobel nigeriano Wole Soyinka, Luis Fernando Verissimo e Gregório Duvivier na mesma mesa, Conceição Evaristo, Ondjaki e muitas atrações mais. Além de autógrafos de Flávio Tavares, Ana Mariano, Rafael Escobar e dezenas de autores, confere aqui. A página chegou ao fim – e a carta também. Mas pelo menos a gente tem Feira até dia 19 de novembro, Ana Júlia.

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Autopropaganda: no dia 6, às 17h30, lanço Dez (quase) Amores + 10, a continuação do meu primeiro livrito, que sai agora pela editora Belas Letras. Nos vemos lá?

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