Claudia Tajes: Rio-POA com escala no inferno

Vou a Porto Alegre uma vez a cada 30 dias, na média. Ninguém imagina o estado do coraçãozinho cada vez que se aproxima a data da viagem. Rever os meus queridos, eu que agora moro sozinha e longe, representa um Natal por mês. Digamos que não está sendo fácil, como certa vez entoou a cantora Katia. Mas é o que temos para o momento.

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Em dia de viajar para Porto Alegre, geralmente no sábado bem cedinho, quase não durmo. Medo de não ouvir o despertador, coisa que, nessa já longa estrada, jamais me aconteceu. Viro na cama, olho o relógio: duas da manhã. O que parece uma eternidade depois, são apenas 2h54. Demora muito até chegar ao número mágico: cinco. Acordar com as galinhas nunca foi tão alegre.

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Bárbara e Marcelo, meus amigos sargentos

Em um desses sábados encontrei o caos no aeroporto Santos Dumont. Que, por ficar no meio da cidade, cercado por morros, a pista brotando do mar, fecha por qualquer chuvinha ou nebulosidade. No caso, não chovia e não tinha nebulosidade, mas estava fechado mesmo assim. No momento exato em que me antevia no paraíso, oficialmente chamado de sala de embarque, meu check in, feito pelo telefone para economizar papel e tempo e ser legal e etc, desapareceu. Em um piscar. Na minha cara. Pensei em um aplicativo desenvolvido pelo demônio para acabar com a minha felicidade, mas seria falta de modéstia achar que o demônio se ocuparia comigo. “A senhora tem que voltar ao balcão.” Voltei. Eu e milhares de pessoas. Todos os voos estavam cancelados.

A maior parte dos trechos que sai do Santos Dumont faz escala em Congonhas. E Congonhas também estava fechado por causa das más condições climáticas. Mesmo com o Rio reabrindo pouco depois, nada partia e nem pousava. A essa altura eu ainda mantinha a esperança de chegar em casa rápido. Dentro de um aeroporto, o lugar mais absurdamente caro do planeta, a esperança é a única coisa que não custa nada.

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Avião presidencial: o mais perto que cheguei do poder

A moça toda escabelada, depois de uma digitação interminável no computador: “Infelizmente, não tem mais voo para Porto Alegre nem hoje e nem no domingo”. Como assim, não tem mais voo? Faz 28 dias que eu espero por este final de semana! A informação, dada para todos os passageiros, causou um furdunço de proporções diante do balcão. Duas mulheres se pegaram a tapa. Uma atendente foi agredida. A companhia acabou criando um voo extra, agora sem escala, duas horas mais tarde. Apesar da confusão, embarcamos. Agora vai.

Sentados na mesma fileira que eu estavam a Bárbara e o Marcelo, casal de sargentos da Aeronáutica. Como o avião não se mexia, começamos a conversar. Os dois viajavam para uma semana na Serra depois de penar com os desmandos do clima – e da companhia – no aeroporto. Chegaram a ser retirados de um voo que estava pronto para decolar. Não fosse o papo bem-humorado com os novos amigos militares, aquela hora inteira dentro de um avião na pista teria sido um suplício. Será que Congonhas fechou de novo?

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Não Está Sendo Fácil, sucesso do ano aqui em casa

“Senhores passageiros, aqui fala o comandante. Nosso atraso deve-se ao fato de o avião presidencial estar na pista e ter prioridade para decolar. Ocorre que um dos políticos da comitiva está atrasado e no momento estamos esperando o helicóptero que vai trazê-lo. Após, serão realizadas as cerimônias de despedida e prosseguiremos com o nosso voo. Por sua atenção, obrigado.”

Só sei que demorou muito. Tanto que o final de semana se reduziu a uma rebinha do sábado, a 2/3 do domingo – e já era hora de voltar. O clima é incontrolável, voo que não respeita horário é do jogo, a gente se acostumou com os maus-tratos das companhias e tudo o que quer é chegar logo. Mas político atrasado bem na minha vez só tem uma explicação: o demônio desenvolveu um aplicativo para acabar com a minha felicidade. Azar o dele. Daqui a 30 dias eu volto.

Sobre a nossa aeronave aqui. Todo o sucesso para a carreira solo da comandante Mariana Kalil, que vai fazer muita falta. E boas-vindas para a comandante Marianne Scholze, a quem prometo – solenemente – entregar as colunas no prazo. De atrasados já nos bastam os aviões.

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