Claudia Tajes: Sangue, suor & lágrimas de um consumidor

Um dia em Porto Alegre: começa assim...
Um dia em Porto Alegre: começa assim...

É sempre complicado escrever sobre uma experiência pessoal na página que, se tudo der certo, vai ser lida por muitas pessoas. Será que os perrengues que o colunista passa na sua vida privada interessam a alguém? Dessa vez, às voltas com uma mudança de endereço que começou sentimental e terminou em ataque histérico, não resisti a dividir os meus bizarros acontecimentos. E se mais viventes já tiverem passado pelas mesmas desditas fica aqui, desde já, minha solidariedade.

... e logo está assim.

… e logo está assim.

Tudo começou em um sábado daqueles em que choveu mais do que o chão e os rios conseguiam aguentar. Sábado de uma chuva que desabrigou, ilhou e maltratou milhares de pessoas pelo Estado – e só isso já torna a minha história pequena. Chovia sem parar, mas a mudança estava marcada. O jeito foi acordar de madrugada, terminar de embalar o que faltava (o pessoal da empresa contratada não havia aparecido no dia anterior, conforme o combinado, para fazer essa tarefa) e esperar pelo caminhão, que deveria chegar às 8h. Esperar. Esperar. Esperar. Não apareceu às 8h, nem às 8h30min, nem às 9h. Quando liguei, o (ir)responsável respondeu: mas por que tão nervosa se a tua mudança não é hoje?

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(Neste parágrafo, entrariam os impropérios que o rapaz ouviu, mas a editora achou por bem poupar os leitores.)

Não sei o que aconteceu com a memória de um rapaz tão jovem, mas a mudança tinha sido marcada, sim, para aquele sábado. E já estava paga havia mais de um mês. Abaixo de gritos, ele prometeu mandar um caminhão em seguida.

Então, pelas 10h da manhã, o moço da portaria me ligou: chegou a Fiorino que vai fazer a sua mudança.

Bem maior que o meu caminhão de mudança

Bem maior que o meu caminhão de mudança

Uma casa não cabe em uma Fiorino – que nada mais é que um Uno de carga. Não cabe um sofá grande. Uma cama grande. Um armário grande. Uma geladeira grande. Uma vida minúscula – mas, ainda assim, uma vida. Mais alguns impropérios depois, o tal do irresponsável ficou de mandar um caminhão tão logo fosse possível. Perto do meio-dia, o bicho chegou.

Era um caminhão meio baleado, e a minha impressão foi a de que recrutaram quem estivesse passando pela frente da empresa para carregar as tralhas. Pessoal eficiente, sem dúvida. Antes das 15h, estava tudo atirado no meio do apartamento novo. Não sumiu um alfinete. Em compensação, todos os móveis chegaram estragados. Todos. Mesa, cadeiras, armários, poltronas. Em tudo agora faltam pedaços e sobram arranhões, lasqueados, quebrados. O sábado amanheceu com pinta de que algo podia dar errado. E não decepcionou.

Depois que a gente consegue minimamente se instalar, começa a segunda e mais irritante parte da saga: esperar pelos serviços. TV e internet são hoje miragens no meu horizonte, tanto que escrevo estas mal-traçadas em uma lan house, entre um adulto vestido de criança que grita a cada inimigo que mata no seu joguinho de computador e uma menina que chora enquanto leva um fora do namorado gringo pelo Skype. Depois de três visitas, a NET desistiu da instalação devido às dificuldades de cabeamento do prédio. A SKY não tinha cobertura de banda larga na região – bairro Petrópolis! A Claro prometeu mundos e fundos em dois dias mediante a minha conta para débito automático, e eu acreditei. Agora estou criando um couro na orelha de tantas horas ao telefone para cancelar o serviço que nem chegou a ser instalado. Isso tudo fora os outros fornecedores que marcam, deixam o cara de plantão e não aparecem.

Principal doação: solidariedade no Ginásio Tesourinha

Principal doação: solidariedade no Ginásio Tesourinha

É uma história até cômica, ainda mais diante de todos os estragos da chuva. Aliás, já levou as suas doações até o ginásio Tesourinha? Produtos de limpeza, alimentos, roupas, vale tudo e falta muito. Essa aqui é apenas a saga de mais um consumidor que paga e não leva, ou que paga e é enganado. Só não vou falar da lenda que é entregar o apartamento antigo na imobiliária porque ficaria muito rocambolesco – ainda que só a ficção tenha a obrigação de ser verossímil. A vida, ah, essa sempre vai parecer uma deslavada mentira.

A coluna da semana passada, que falou dos erros de português, recebeu alguns reparos. Leitores apontaram dois erros meus: em “muitos menos aos dos negócios informais”, sobrou um “s” depois de “muitos”. Em “tem erro para burro – no sentido literal” faltou o “não” antes de “sentido literal”. O Fernando Cogan compartilhou dois endereços na luta contra os erros de português: www.facebook.com/RevisaoSA e @revisao–sa no Instagram. A Marlise Pontes propôs “união em defesa da Língua Portuguesa antes que se instale o caos graforrágico”. O Mário Marcos de Souza, que escreve melhor do que eu, e o Telmo Henrique Pacheco lembram do uso exagerado dos estrangeirismos. A batalha é árdua. Mas seguiremos a postos.

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