Claudia Tajes: saudades do tradicional almoço de domingo em família

Quando eu tinha família grande, pai, mãe, irmãos na área, tios, tias, primos, primas, namorados(as) e agregados(as), o domingo era um dia especial (hoje é igual aos outros, e ainda com todos os trabalhos que não terminei exigindo a desova até o fim do Fantástico). Quando eu tinha família grande, o domingo começava a ser planejado lá por quarta ou quinta. Que haveria um almoção, haveria. Tratava-se de decidir o cardápio e o número de convidados com uma certeza: seriam muitos.

00a41f7dFamília italiana: haja macarrão

No meu caso, o almoço de domingo ganhou status de evento quando meus pais compraram uma casa em Ipanema, uma que precisaria de muita reforma para virar a casa dos sonhos. Não importa. O sonho era deles, e os dois se encarregaram de dividi-lo com os convivas. Os tios e primos, visitas mais frequentes e as mais divertidas, não faltavam. Ex-vizinhos do prédio antigo, colegas de trabalho, ex-colegas de trabalho, amigos de outros carnavais, pessoas que nunca soube de onde surgiram. A rotatividade nos meios-dias de domingo fazia inveja ao Barranco. A cozinha ficava com o meu pai. Se não fosse churrasco, feijoada. Ou comida árabe. Ou massas e mais massas. O ponto baixo acontecia uma vez a cada inverno: o domingo do mocotó. Meu pai começava a preparar o troço na sexta, e o cheiro que saía da panela em ebulição interminável se espalhava por tudo. Tinha cheiro de mocotó nos quartos, nos banheiros, no pátio, no jardim, na rua toda, nas nossas roupas e cabelos. Um cheiro que bem poderia ser o de um homem sendo cozido em fogo baixo em um caldeirão. Não comi e não gostei. Já uma das minhas irmãs, mais afeita às selvagerias culinárias, exagerou tanto no tamanho e na repetição do prato que foi parar no hospital. Intoxicação por mocotó, algo a ser esquecido na biografia de uma dama.

00a41f7eSe eu cozinho, eu não lavo

Naquela hora em que todo mundo já está satisfeito e até o assunto à mesa rareia, nessa hora sempre me dava um aperto na barriga. Nada a ver com necessidades de qualquer ordem. É que um almoço para muita gente implica em muitos pratos, muitos talheres, muitos copos, muitas panelas, muitas xícaras, muito para limpar. Acho que acontecia em todas as famílias da época: a louça suja cabia às mulheres, mais especificamente às filhas dos donos da casa. Bem verdade que as primas sempre ajudavam. Entrar na cozinha depois de um festim, isso sim é pesadelo. Eu preferia lavar para ditar o ritmo do serviço. Lei dos trabalhos forçados: se o lavador for uma lesma, o que seca está condenado a ver o sol do domingo ir embora através da basculante da cozinha. Não raro alguma das gurias desaparecia, sobrecarregando as que sobravam. As alegações iam de má digestão à urgência para terminar um tema de aula que, se não fosse o domingo do almoço em família, jamais seria feito.

00a41f7fDepois da foto, a louça

Quando eu tinha família grande, todo mundo acordava cedo no domingo para arrumar a casa para as visitas. Quarto esculhambado, sala com cacarecos atirados, filhos largados no sofá vendo TV, nada disso era admitido. E todos participavam das conversas, sem essa de ficar em um mundo próprio no seu canto – bem verdade que não existiam tablet, iPhone e etc. Hoje o almoço de domingo perdeu a liturgia, raramente o horário de um e outro combina para uma sagrada refeição juntos. A sala vive cheia de cacarecos e o quarto do filho não é esculhambado, já passou desse estágio há séculos. A vida parece diferente, mas então escurece e, vinda de algum lugar, a música do Fantástico atravessa a parede avisando que o domingo acabou. Impossível não sentir um aperto na barriga – nada a ver com necessidades de qualquer ordem. De tocaia na porta, a segunda-feira espera. E sabe-se lá o que a semana vai trazer. Boa sorte para nós e até o domingo que vem.

 

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