Claudia Tajes: Sayonara, seu Tadao

Já escrevi várias vezes sobre o Sakae’s, o primeiro restaurante japonês de Porto Alegre, aquele que transformou peixe cru em comida não apenas aceitável, como desejável, no tempo em que o máximo que a gente encarava por aqui era um churrasco malpassado – e desde que servido quente.

Na primeira vez em que estive no Sakae’s, odiei a fria e escorregadia lâmina com gosto de… peixe cru. Na primeira vez, o shoyo foi estranho, o wasabi queimou a boca e coordenar os hashis – ou pauzinhos, no popular –, um tormento. O sashimi talvez seja daquelas tarefas que a gente se impõe quase que como um desafio civilizatório. Se milhões se alimentam dele, se é saudável, se é bonito, então só pode ser bom. De tanto insistir, o vivente acaba gostando. Depois não quer mais passar sem.

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O Sakae’s abriu em 1973 na frente do Hotel Embaixador, no centro. Foi em 1981 que se mudou para a casa da Rua Castro Alves, onde está até hoje. Nesse tempo todo, não houve um único dia em que, vencendo a porta de correr do restaurante, o cliente não enxergasse o seu Tadao atrás do balcão, compenetrado nas fatias dos seus peixes – nem tão largas que parecessem um naco de picanha, nem tão finas que lembrassem um carpaccio. Ele recebia a todos com um sorriso sério, se é que isso existe, e voltava para o trabalho. Na TV ligada na sala ao lado, vários japoneses de fralda se revezavam em intermináveis campeonatos de sumô. Às vezes o seu Tadao dava uma olhadinha. Mas só às vezes.

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Engenheiro que veio para o Brasil fugindo das durezas do pós-guerra, o seu Tadao vai fazer uma falta e tanto. Que o diga a dona Sakae. Os dois foram namorados por muitos anos. Quando o romance acabou, e o amor continuou, eles viraram os melhores amigos e companheiros. O seu Tadao deixa um filho aqui e outro no Japão. E deixa também a Marta, a Rose, a Patrícia, a Virgínia, o Masaki, o seu Paulo, pessoal que trabalha a vida inteira no restaurante. O Lucas, discípulo, vai honrar o posto do seu Tadao de agora em diante.

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Meu filho, pequeninho, queria que a minha mãe viúva casasse com o seu Tadao para a família comer de graça no Sakae’s. Há uns bons vinte anos a ceia de Natal na minha casa tem sido servida em um barco tão grande que duas pessoas precisam carregar. Era onde o seu Tadao colocava os sushis e sashimis feitos no capricho para a data. Nesse dia, ao buscar a encomenda, a gente dava um beijo e entregava um presente para o seu Tadao. Ele ficava tão envergonhado por uma coisa, quanto pela outra.

Lendo aqui sobre as cerimônias de despedida no Japão, aprendo que parentes e amigos costumam sentar ao lado da pessoa que morreu e conversar tocando no seu rosto, como se ela estivesse viva. Era exatamente isso que a dona Sakae fazia no velório do seu Tadao. “Tadao, seu bobo, acorda.”. “Terno pra quê, Tadao?’. Se for pela tradição, acho que o Sakae’s vai continuar igual. O seu Tadao merece isso.

As fotos da coluna são uma gentileza da Malu Magoga, do blog Detalhes Mágicos.

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