Claudia Tajes: as sete vidas – e os setenta anos – de Nelson Motta

 

E então Nelson Motta completou 70 anos. Entre o pessoal que fez história na música, ele é um dos bebês. Caetano, Gil, Roberto, Erasmo, Nana Caymmi, Chico, todos setentões. Rita Lee, que até há pouco era uma ruivinha (muito louca, é bem verdade) vestida de noiva no palco, está quase lá. Tom Jobim e Tim Maia, pena, não conseguiram chegar. João Gilberto já passou dos 80, não se sabe direito em que estado, mais recluso do que nunca. Alguns dirão: grande coisa. O que não falta é gente de 70 anos por aí. Fato. O diferente é que, não faz muito, o sujeito já era considerado e acho que já se considerava velho aos 50. Cinquenta, a nova flor da idade, considerando que os 40 namoram com a adolescência e os 30 são quase a infância. Da casa dos 20 para trás, aí só resta a quem olha de longe se comover com o tanto de tudo que essa gente tem: esperança, razão, ingenuidade, soberba, certezas, beleza e etc, etc, etc.

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Para comemorar os seus 70, Nelson Motta não pensou em um bolinho com 70 velas, como talvez o meu pai (que parou nos 62) tivesse permitido. Talvez. Meu velho era totalmente avesso a festejos. O aniversariante de 29 de outubro lançou logo um projeto, Nelson 70, que incluiu um disco e uma série de TV exibida no Canal Brasil. No disco, o Nelson-letrista apresenta antigos e novos parceiros. Volta a se reunir com Marisa Monte após 25 anos. E até o Jorge Drexler, um dos campeões de audiência da gauchada, surge cantando Como Uma Onda. Comentário do letrista-gentleman: “Agradeço também a minhas musas, que me permitiram transformar alegrias e tristezas, sofrimentos e prazeres, sucessos e fracassos, em música e letra, e assim me livrar desses sentimentos ao compartilhá-los com multidões de desconhecidos que se identificam com eles e tomam as músicas para si – é a maior alegria de um compositor, que dá sentido ao seu trabalho e mantém as músicas vivas”.

00a7b74bNa capa: só os confirmados

Tem mais: o livro As Sete Vidas de Nelson Motta. Quando tudo começou, a ideia era que a coluna fosse toda sobre o livro, mas o personagem foi mais forte. As memórias sem uma ordem cronológica trazem muitos dos textos publicados pelo autor no jornal Última Hora, do Rio de Janeiro. Aos 23 anos, ele foi convidado por Samuel Wainer, o dono de jornal mais poderoso de então – e jornalista da gema, de verdade, no duro – para escrever uma coluna diária sobre “o nascente poder jovem na cultura, no comportamento e na política”. De onde saiu tanto material? Dos guardados da mãe que foi moça até o fim, aos 93 anos, três meses depois de perder o marido com quem viveu por 70 anos. Setenta, mais uma vez.

00a7b74cUma pose com a melhor de todas

As histórias falam sobre tudo e todos, personagens e situações que alguém precisaria ter passado as últimas décadas em Plutão, o planeta rebaixado, para não conhecer. Um dos capítulos de que mais gostei é “O novo velhismo”, que começa assim: “Nunca imaginei que iria ficar velho”. E mais adiante: “Tampouco me passou pela cabeça que eu seria capaz de furar filas em aeroportos, bancos e cinemas com a tranquilidade dos justos. (…) Nos aeroportos, furando feliz filas imensas, imagino como se sentem os nossos parlamentares. Assim como eles, mas por motivos diversos, não sinto a menor vergonha. Nem da minha idade e nem dos meus direitos legítimos”. Sobre o politicamente correto americano, que agora proíbe chamar alguém de mais de 60 de “idoso”: “Depois do racismo, do sexismo e do pobrismo, o velhismo”.

Ao final de As Sete Vidas de Nelson Motta, o leitor se sente mais moço. Quem sabe, por isso, o livro é dedicado aos três netos do autor. São setenta anos em 214 páginas e um palpite. Brigar com o tempo, isso sim é que envelhece uma biografia.

00a7b749Como una ola en el mar, Drexler

Recebi no ano passado o pedido mais nonsense da minha já longa história. Apelando para o meu “espírito colorado”, uma moça queria que eu doasse “o peru de Natal que a RBS ia me dar”. O problema é que o meu espírito (o corpo também) é gremista e a RBS não ia me dar peru algum. Coisas que acontecem. Já uma iniciativa da Casa Harmonia do CAPSI (Centro de Atendimento Psicossocial para Crianças e Adolescentes), tenho o maior prazer de divulgar. Enquanto seus filhos eram atendidos, as mães confeccionaram uma imensa colcha de fuxico, aquele artesanato de linha colorida que é material de muitas coleções de moda – internacionais, inclusive. Agora, a colcha vai ser rifada para que os pequenos possam conhecer o Natal Luz de Gramado. O sorteio será no dia 16 de dezembro, os números custam R$ 5 cada e é muito fácil comprar: basta entrar em contato com a Guilhermina Boschi ou a Rosneida Beron pelo fone do CAPSI: (51) 3289-2690.

 

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