Claudia Tajes: Superpoderes

Batfino: amor de infância
Batfino: amor de infância

Na primeira vez em que me apaixonei, o amor foi impossível. Eu devia ter uns cinco anos e estava no jardim de infância. Ele era o Batfino, o morcego que estrelava o meu desenho animado preferido. Lembro até hoje da sensação de amar o Batfino. Ficava na frente da TV até bem depois de o desenho acabar, sem vontade de me mexer dali, muito menos para tomar banho ou comer a janta de criança que me esperava na mesa (na minha casa tínhamos um cardápio diferenciado para os filhos no jantar – e sempre com uma sopa obrigatória, que então eu detestava).

E como é que coloca o braço de volta?

E como é que coloca o braço de volta?

Sonhava com o Batfino ao deitar na minha cama com lençóis da Cinderela. No quarto dividido com as irmãs mais moças, entre uma briga e outra pela atenção da mãe antes de dormir, me imaginava casando com o Batfino. Eu de noiva aos cinco anos, ele com seu uniforme de supermorcego. Um dia, do nada, me dei conta de que éramos muito diferentes, ele desenho, eu gente (ou projeto de, pelo menos). Preconceito? Mas o que me desanimou mesmo foi o fato de eu não ter nenhum superpoder. Um herói famoso como ele jamais me notaria.

O herói que deixa o mundo colorido

O herói que deixa o mundo colorido

Talvez o Batfino tenha sido substituído por um Luís, um Afonso ou um Marco no pré-primário. Por um João, um Marcelo ou um Osório na primeira série. Mas como costuma acontecer com o primeiro amor, nunca foi esquecido. Lembro-me dele protegendo as vítimas de um assalto com suas asas de aço. Sem falar no radar supersônico, superpoder que eu adorava, ainda que sem entender muito para o que servia. Hoje em dia, com GPS até no celular, talvez fosse um poder meio falhado.

Haja sal de fruta para o Digestor

Haja sal de fruta para o Digestor

Embora existam heróis bem mais inúteis que o meu morcego de desenho animado. No caso do Arm Fall of Boy (João Sem Braço, em livre tradução avacalhada), o poder é arrancar o braço esquerdo e usá-lo como porrete para combater o mal. O Saltador tomou um fluído de plástico pensando que era refrigerante e passou a quicar como uma bola para atingir os inimigos. O Digestor come qualquer coisa, de aço a pedras – que tenha um ótimo gastroenterologista. O Color Kid muda a própria cor e a cor do que está em volta, para bem se camuflar. É muita criatividade para pouco resultado prático. Bem que alguém podia inventar um super-herói com o poder de acabar com as guerras, por exemplo. E imprimir o vivente em uma impressora 3D, e ele sair por aí dando um para-te quieto em todo mundo que coloca os interesses políticos e dinheirísticos acima das pessoas. Mas isso já é delírio. Melhor sonhar com o Batfino.

 

É uma bola? É um balão? Não, é o Saltador

É uma bola? É um balão? Não, é o Saltador


Já começou, mas quem sabe ainda dá tempo? Para quem quer escrever, a Cíntia Moscovich tem uma oficina de romance pela internet em oito semanas com um chat ao vivo às quartas-feiras (para falar com a profe) e muitos exercícios práticos. O Romance e suas bases: como fazer. Informações com jhenifer@estacaodasletras.com.br

E saiu o livro novo do Léo Gerchmann: Somos Azuis, Pretos e Brancos. Lançamento da L&PM que, muito mais que um livro sobre o Grêmio, é a segunda obra do Léo contra o preconceito – seja ele qual for.

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