Claudia Tajes: Tem pra homem?

Foto: Patrick Korarick
Foto: Patrick Korarick

Não faz muito tempo, há poucos anos mesmo, bastava um rapaz aparecer com uma calça mais colorida, ou um casaco mais estampado, ou uma camisa mais justinha, que alguém logo perguntava: tem pra homem onde te venderam isso aí?

A resposta dos machos mais convictos era sempre a mesma: por que, quer comprar para o teu?

Os mais tranquilos apenas sorriam com desprezo e com a sabedoria de quem não tinha medo de que uma roupa, uma simples roupa, fosse indicativo da preferência sexual de alguém. Lembrei disso ao ver uma moça loira, alta e bonita, entrar vestida de terno e gravata em um evento da cidade, há alguns dias. O homem ao meu lado cutucou a esposa, devidamente ensacada em um tubinho justíssimo que não lhe permitia grandes reações: aquela ali, já vi tudo, é da turma da Marlene Mattos.

Esclarecimento às novas gerações: Marlene Mattos, ex-empresária da Xuxa, saiu de cena há horas, mas continua a ser lembrada por alguns quando se faz necessário evocar a imagem de uma mulher masculinizada.

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Só sei que a loira de gravata não tinha nada a ver com o estereótipo da, perdão pela grosseria, sapatona. Se era ou se não era, problema dela. Mas o simples fato de estar de gravata já levou o homem – de não muito mais que 50 anos – a determinar: é. À mulher dele, muito feminina em seu tubinho que não a deixava respirar, restou acenar com a cabeça, concordando.

Lembrei também de uma vez em que fui com um amigo hetero a uma sinuca na Sarmento Leite. Meu amigo usava calça de couro, casaco de couro, camiseta de couro e bota de couro por cima de calça. Foi saudado com assobios e piadinhas. Se eu, de vestido, não tivesse defendido a honra dele e o tirado às pressas do recinto, não sei o que aconteceria com o coitado.

Estar vestido de acordo. O que isso significa, afinal? Ir à cerimônia do Oscar de calças compridas e jaqueta para ganhar o Melhor Figurino, como a gente viu, é crime inafiançável. A senhora que subiu ao palco assim para buscar seu prêmio foi chamada de tudo, “velha louca” e “velha sem noção”, para ficar nos comentários menos ofensivos. Claro que, ao figurino informal demais para a ocasião, juntou-se o fato de ela já ser coroa. Aí é que ninguém perdoa mesmo.

Por outro lado, uma mulher com mais de 60 de saia mais curta ou cabelo comprido, por exemplo, também não é poupada. “Velha louca” e “velha sem noção”, como sempre, são os comentários menos ofensivos. Difícil não se incomodar se a pessoa não vive absolutamente dentro de um padrão.

Além de tudo o mais que o caso envolve, a polêmica do shortinho também é resultado desse “dress code” – como se diz em português – que precisa ser atualizado já. Se as meninas estudam direitinho, respeitam todo mundo e têm um comportamento que condiz com a instituição colégio, para que criar problema com o shortinho?

Vendo as fotos da coleção masculina da estilista Vivienne Westwood, hoje uma senhora de 74 anos que surgiu junto com o movimento punk na Inglaterra, pensei: pobres dos homens que se atreverem a tanto.

Para a noite, ela sugere vestidos dourados. Para o dia-a-dia, botas com pantalonas curtas. É, Vivienne, ainda bem que os rapazes que você vai vestir não moram na minha vizinhança. Aqui, o mínimo que eles ouviriam é: tem pra homem? E com os saltos que você propõe para os mais ousados nesse inverno, ia dar muito machão com a cabeça quebrada depois da piadinha infame. Melhor deixar pra lá.

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