Claudia Tajes: “Tenho me entristecido pelas pessoas que perdi”

Foto: Pexels
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Andei perdendo pessoas nos últimos tempos, algumas por culpa minha, outras por circunstâncias: distância, mal-entendidos, desinteresse de ambas as partes, esquecimento, higiene. Perdas em vida talvez fossem possíveis de recuperar com uma mensagem simples ou até com um ato em desuso chamado de conversa cara a cara, um na frente do outro ouvindo, e dizendo, coisas que doem. Triste é que, conforme o tempo vai passando, passa-se a desconsiderar a importância que a pessoa perdida em vida teve para a gente. Sério que um dia eu dividi tanto com ela? Com a falta que a morte deixa, ninguém se conforma. Já as faltas que surgem com a vida, essas são bem mais fáceis de aceitar.

Uma época belicosa como a nossa faz relações que pareciam firmes se desintegrarem por conta de opiniões que não combinam. Eu mesma já tomei bola preta de gente que considerava amiga e perdi a conta de quantos bloqueei nas redes sociais. Meu Facebook é hoje um bunker antirraiva em geral. Não que eu pense igual a todos os que ali estão, ou que eles sempre concordem comigo, mas os contras que mantenho são todos finos, elegantes e sinceros. Se é preciso admirar alguém para se relacionar – ou, ao menos, é necessário não desprezar – não há por que manter contato com os grossos e violentos. Vade retro.

Sobre os que vão embora por alguma situação que poderia ter sido contornada e não foi, esses acabam deixando um buraco no coração da gente. É diferente da implosão causada por amores que acabam, ainda que alguns considerem as grandes amizades mais fortes do que a paixão. De qualquer forma, é diferente.

Tenho me entristecido pelas pessoas perdidas, mas, quando lembro do fim de alguns relacionamentos amorosos, não sei como sobrevivi. O primeiro de todos foi o mais dramático. Ainda por cima, inventei de curar as mágoas em São Paulo e fui assaltada logo na chegada. Passei duas semanas chorando na casa de um tio, e sem trocar de roupa. Para dormir, me emprestavam uma camiseta de propaganda das balas Quebra-Queixo. Fase difícil.

Quando, enfim, precisei lavar minha única roupa, vesti por dois dias uma camisa Volta ao Mundo que já devia ter uns 20 anos. Era de nylon quente e desconfortável, não deixava o corpo respirar. As axilas vertiam água, o colarinho ficava sempre molhado. Não havia Chanel Nº 5 que desse jeito. Era como vestir um saco de plástico. Na fossa profunda e de Volta ao Mundo, não admira que o fim daquele amor seja uma das minhas mais tristes recordações.

Sorte que nem tudo são perdas. Silvia, Angela, Rosa Maria, a xará Claudia, Kelli, Sara, Leila, Elaine, Marley, Mauro: a cada edição, os e-mails dos queridos leitores alegram o final de semana. Parei de me abalar com as críticas esculachantes que sempre chegam pela simples razão de que escrever xingando é o modus operandi dos amargos. Já receber um e-mail gentil, às vezes contrapondo, mas sempre com elegância, esse é o verdadeiro luxo.

Se um dia eu tiver sabedoria para buscar minhas pessoas perdidas, vou juntar todas com essas novas que agora moram na minha caixa postal. Espaço para isso existe aqui nesse coração vivido, surrado e, tantas vezes, equivocado. Mas que segue acreditando no poder curativo dos afetos.

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