Claudia Tajes: Tira a mão desse prêmio

Faye e Warren: maldita a hora em que a gente aceitou esse bico | Foto: AFP
Faye e Warren: maldita a hora em que a gente aceitou esse bico | Foto: AFP

Sobre a gafe do Oscar, elimine-se 99,99% do glamour e lá estou eu na festa de um prêmio de propaganda em algum momento dos anos 2000. Na época, eu me considerava vítima de uma injustiça, todos os meus colegas sempre ganhavam os prêmios de Diretor de Arte do Ano, Diretor de Criação do Ano, Agência do Ano, Cliente do Ano, Atendimento do Ano, Mídia do Ano, Produtor do Ano, Tudo do Ano. Menos eu.

Era redatora e sempre que parecia estar chegando a minha vez, eu perdia o prêmio. Às vezes, ia para casa arrasada, a juventude é um tempo em que essas coisas têm uma grande importância para a autoestima. Só sei que naquela premiação específica havia três categorias, ouro, prata e bronze. E eu estava entre os redatores chamados ao palco. Agora vai, pensei, já me imaginando com o ouro na mão, enquanto o discurso ia sendo rapidamente montado na cabeça. “Agradeço ao meu filho inspirador, à minha mãe – que cuidou do meu filho inspirador para eu pudesse trabalhar até tarde todas as noites e em quase todos os finais de semana, à equipe da agência que sempre acreditou em mim, aos clientes e blablablá.” Como é de praxe, o primeiro a ser nomeado foi o Redator de Bronze. Que era, óbvio, eu. Tendo o ouro escapado, meu discurso foi mais conciso, quase um “é nóis”. Em seguida, os redatores de prata e ouro festejaram suas conquistas.

Pensamento do apresentador (à direita) | Foto: AFP

Pensamento do apresentador (à direita) | Foto: AFP

O prêmio não passava de um diploma assinado pelo presidente da entidade que promovia o evento. Abri, li o meu nome, beleza. Ganhava abraços junto com alguns “até que enfim”, “demorô”, “já era hora”, quando uma pessoa da organização se aproximou e, sem qualquer psicologia, me deu a notícia: o resultado estava errado. A verdadeira ganhadora era outra redatora, Claudia Mainardi, essa excelente mesmo – tanto que, até hoje, atende grandes contas e faz grandes trabalhos. Lembro direitinho de me sentir uma otária. A culpa não era minha, mas quase morri de vergonha retroativa por ter agradecido por algo que não era meu.

Faye e Warren: maldita a hora em que a gente aceitou esse bico | Foto: AFP

Faye e Warren: maldita a hora em que a gente aceitou esse bico | Foto: AFP

O detalhe cruel foi que a pessoa da organização ainda puxou da minha mão o diplominha de papel sulfite, tamanha A4, que eu havia recebido. Um amigo quis impedir, “Mas o diploma tem o nome dela!”, ao que a funcionária retrucou: mas não é dela.

Ryan tranquilão: eu não tenho nada a ver com isso | Foto: Valerie Macon, AFP

Ryan tranquilão: eu não tenho nada a ver com isso | Foto: Valerie Macon, AFP

Foi assim que a minha querida Claudia Mainardi, que merecia o ouro, acabou com o bronze. Depois disso, nunca mais ganhei nada – até levar o Açorianos de Crônicas 2016 para casa. Mas confesso que, a cada vez que alguém chegava para um cumprimento, eu tremia. Seria um desgosto muito grande se o pessoal da Coordenação do Livro passasse a mão no meu guerreiro para entregá-lo a outro autor.

Por via das dúvidas, recomendo esconder em casa | Foto: AFP

Por via das dúvidas, recomendo esconder em casa | Foto: AFP

Logo após o furdunço do Oscar, a empresa PriceWaterhouseCoopers, que audita todos os tipos de prêmios e concursos pelo mundo, assumiu a responsabilidade pelo mico. Mas existe também uma teoria da conspiração que afirma: teve russo no meio. Para quem influiu no resultado das eleições norte-americanas, causar no Oscar seria fichinha. Seja como for, e por via das dúvidas, tratei de esconder o meu Açorianos. Cachorro mordido por cobra, como se sabe, tem medo até de linguiça.

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