Claudia Tajes: A tragédia da boate Kiss cinco anos depois

Foto: Maiara Bersch
Foto: Maiara Bersch

Há cinco anos, duas meninas diante do espelho. Essa blusa ficou horrível. A minha franja não se ajeita. Empresta aquela tua saia vermelha? Como em todos os sábados, à espera de levá-las para a festa, o pai de uma delas já cochilava na poltrona.

Há cinco anos, o rapaz trabalhou até as 10 da noite no shopping. Cansado, trocou de roupa na loja mesmo e nem foi em casa para deixar a mochila. Não queria perder mais um minuto do sábado.
Há cinco anos, os amigos saíram de uma cidadezinha próxima para ir à festa. O motorista teve que prometer para todas as mães que não beberia, prometo que trago todos sãos e salvos.

Há cinco anos, a garota brigou porque queria sair. Tuas notas estão horríveis, disse a mãe. Segunda tem prova, vai chegar tarde e sem cabeça para estudar. O pai, que sempre dava um jeito de aliviar o lado da filha, conseguiu convencer a mulher. Antes ela sair do que passar o domingo todo de cara amarrada. Pode ir, mas volta antes das duas.

Há cinco anos, a menina comprou uma roupa nova para ir à festa em muitas vezes no cartão. Disse para ela mesma que fazia tempo que não se dava um presente.
Há cinco anos, o menininho estava com febre, mas a mãe dele precisava trabalhar no bar. A avó disse para ir tranquila, se a criança piorasse, avisaria. Avisa se melhorar também, ela pediu. E foi trabalhar com o coração partido.

Há cinco anos, o casal de namorados estava com preguiça de sair, mas uma amiga comemoraria o aniversário na festa e ficaria chateada se os dois não fossem. Foram.
Há cinco anos, o casal que havia se conhecido no sábado anterior combinou um novo encontro na porta da festa. Quase não conseguiu entrar, de tão lotado que o lugar estava.
Há cinco anos, a menina recém-chegada à cidade para estudar foi para a noite com as novas amigas pela primeira vez.

Há cinco anos.

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Cinco anos depois da tragédia da Kiss, só três bombeiros foram julgados e condenados a penas leves por um tribunal militar. Da lista de 28 responsabilizados e 16 indiciados pela Polícia Civil, apenas quatro ainda podem ser condenados. O que tinha foro privilegiado virou secretário de Segurança.

Nesse meio-tempo, pais foram processados por promotores que se sentiram ofendidos por manifestações excessivas. Como se alguma manifestação fosse excessiva quando alguém perde os filhos em uma tragédia anunciada.

Cinco anos depois, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu que os tais quatro réus que ainda podem ser condenados não irão a júri popular. Felizmente, os pais das vítimas da Kiss ganharam um aliado importante: o presidente da OAB-RS, Ricardo Breier, vai atuar no caso como assistente de acusação no recurso que será apresentado pelo Ministério Público estadual ao Superior Tribunal de Justiça. Breier ajudará a defender a tese de homicídio doloso para reverter a decisão do TJ. No meio de tudo, um alento para as famílias e para os sobreviventes.

Cinco anos depois. Mas quando a gente lembra, parece que foi há cinco minutos.

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