Claudia Tajes: Tristeza, modo de usar

Ilustrações cedidas por Julia Duarte
Ilustrações cedidas por Julia Duarte

Ainda bem que a campanha para mudar o nome do bairro Tristeza era só uma forma de chamar a atenção para a tristeza, o sentimento, que, em doses moderadas e bem administradas, é parte da vida de todo mundo. Ainda bem que o bairro vai continuar se chamando assim, Tristeza, porque poucos endereços têm tanta poesia no nome. Cristal, Menino Deus, Praia de Belas, Moinhos de Vento, Três Figueiras, Arquipélago, Pedra Redonda, todos são nomes bonitos. Mas lirismo mesmo, de verdade, é o da Tristeza.
amor

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Eu lembro de, criança, me intrigar com a existência de um lugar que se chamava Tristeza e de outro que se chamava Alegria, um de frente para o outro, separados por um rio. E se eles não ficarem exatamente um de frente para o outro, peço desculpas pela ignorância, mas foi como um dia me contaram. É como em Divertidamente, o desenho, que mostra a alegria e a tristeza morando tão perto dentro de nós, uma precisando da outra para existir.

foi

 

A tristeza surge a partir de experiências que causam perdas, frustrações, conflitos, traumas, rompimentos, dores. Parece que nunca vai passar – até que cura. Deixa a gente meio remendado, é verdade, talvez com uma cicatriz de Frankenstein que, para não destoar do mundo sorridente das selfies, estará bem melhor escondida. Depois da tristeza, a vida continua. E, se não continuar, aí não estamos só falando de tristeza. Aí o buraco é bem, bem mais fundo. E vai precisar de ajuda.

metade

A campanha Precisamos Falar da Tristeza, que felizmente não vai mudar o lindo nome do bairro, é uma iniciativa do CVV, o Centro de Valorização da Vida, para impedir que a tristeza saudável – por assim dizer –, aquela que é inevitável sentir, acabe se transformando em patologia. Sendo o Setembro Amarelo o mês de prevenção ao suicídio, desfecho de muitos dos casos de depressão, e sendo o Rio Grande do Sul o Estado com a maior incidência de suicídios do país, o CVV resolveu falar às claras de um assunto que é tabu. E que, se não for discutido, pode continuar somando mortes às estatísticas. Agora mesmo, na Praça Comendador Souza Gomes, na Tristeza, um evento do CVV está distribuindo materiais e oferecendo os ouvidos e o ombro para quem quiser falar da tristeza. Ou ter mais informações sobre depressão para procurar apoio o quanto antes. O telefone do CVV atende 24 horas. É só ligar 188.

calma

Dizem que muitas pessoas se angustiam e se entristecem por ter a sensação de que o mundo é uma festa e que só elas estão de fora. Já eu me sinto feliz por estar de fora, o que talvez não seja assim tão saudável. O fato é que a tristeza – em pequenas doses – pode ser boa e produtiva. A Júlia Duarte, artista de Porto Alegre que hoje mora em São Paulo, tem várias obras sobre isso. Aliás, o projeto dela se chama Tristezinha do Bem. Nas fotos da coluna, um pouco do espírito da coisa e da maneira que a Julia encontrou para transformar a tristeza em arte. Mais no Instagram @tristezinha e em tristezinha.tumblr.com

bem

É como diz a música do Wander Wildner: eu não consigo ser alegre o tempo inteiro. Mas, se a falta de alegria passar do ponto, já sabe. Chegou a hora de falar da tristeza.

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