Claudia Tajes: A um passo da Olimpíada

Um dia tudo será seu. Por 39 bilhões. (Arte zh)
Um dia tudo será seu. Por 39 bilhões. (Arte zh)

E eis que, a menos de duas semanas da Olimpíada do Rio, a cidade que estava em obras desde bem antes da Copa de 2014 começa a mostrar o resultado de tanto tempo e dinheiro investidos – muito de ambos. Parece que a conta toda fecha em quase R$ 39 bilhões, mais da metade bancados pela iniciativa privada por meio de patrocínios e parcerias, diz a prefeitura. Nesses momentos, sempre lembro daquela clássica frase, “É melhor não saber do que são feitos os acordos e as salsichas”.

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É um método de trabalho que me parece familiar: deixar tudo para a última hora e depois sair correndo como louco para entregar a tempo. Não dava para acreditar que as obras da linha 4 do metrô em Ipanema e no Leblon pudessem mesmo terminar, tal a buraqueira e a quantidade de materiais de construção espalhados por quadras inteiras. Então, da noite para o dia – literalmente –, a avenida começou a ser asfaltada, árvores foram plantadas, reassentou-se o calçamento de pedra e pimba, a cidade ressurgiu. A praça perto de casa, que eu jamais havia visto sem os tapumes, virou o ponto da estação Antero de Quental. Bebês nos carrinhos, crianças de bicicleta e velhinhos em cadeiras de rodas passaram o final de semana reconhecendo o terreno. Senhoras faceiras invadiram a academia da terceira idade. E os bancos novíssimos ficaram lotados de leitores de jornal e apreciadores do movimento. Estava friozinho, ainda que nada que se comparasse ao último e congelante final de semana no Rio Grande. Mas o pessoal, fazendo jus ao seu estilo de viver a rua, e encasacado como a gauchada só admite quando o Minuano bate sem piedade na orelha, retomou os seus espaços.

Piada no tapume, um clássico carioca (Claudia Tajes, arquivo pessoal)

Durante a Olimpíada e a Paraolimpíada – que agora, para uniformizar com a grafia dos demais países de língua portuguesa, fomos obrigados a chamar de Paralimpíada –, a nova linha do metrô estará aberta apenas para quem tem ingressos para as competições. E a estação da Gávea ficará interditada, as obras lá estão longe de acabar. De qualquer jeito, será uma mão na roda, ou nos trilhos. Chegar à Barra, endereço de muitos dos equipamentos da Cidade Olímpica, vai levar minutos, em vez da eternidade em um trânsito congestionado. Para a população em geral, esse verdadeiro milagre acontecerá só no final de setembro. Mas pelo menos existe uma data no horizonte, ao contrário do que ocorre com o lendário metrô de Porto Alegre.

E o Rio da Olimpíada, aos poucos, se revela. Com a retirada dos tapumes, tudo se mostra amplo, claro. As forças de segurança já ocupam as ruas, policiamento com armas ostensivas pelos caminhos. O tratamento de beleza também incluiu painéis coloridos instalados desde a saída do Galeão até parte da Linha Vermelha, escondendo atrás deles a enorme favela da Maré. Para o jornal Sensacionalista, o próximo passo é o prefeito Eduardo Paes lançar um tutorial ensinando a eliminar, com pequenos truques de maquiagem, todas as imperfeições de uma cidade.

Os turistas estão chegando, e rápido. Já são várias as línguas ouvidas em uma simples ida ao supermercado.
A cidade também está lotada de pessoas aproveitando as férias escolares do meio do ano – que, no Rio, foram adiadas para agosto. Esses dias, em uma loja, um menino de seus 16 anos, forte como um levantador de peso e com um sotaque nordestino arretado, pediu para a vendedora uma camiseta preta. A senhora que o acompanhava, talvez a avó, não concordou:

– Ó, xente, mania de usar preto. Compre uma coisa mais prafrentex, esse menino.

Em outra loja, essa phyna e ryca, como se diz para demonstrar finesse, duas norte-americanas conseguiram, a muito custo e só por conta da mímica, experimentar uma sandália exposta na vitrine. Uma das moças perguntou o preço em dólares. A vendedora buscou uma calculadora, outras duas atendentes deram palpites e, depois de muitos minutos, as três apresentaram o número para as clientes. As gringas saíram sem dizer adeus. Ao invés de dividir o valor em reais pela cotação do dólar, as vendedoras multiplicaram por R$ 3,75. Não por desonestidade, mas porque não sabiam como fazer. Por sorte a Olimpíada que vamos sediar não é a de matemática. Que a gente passe bem por ela, pois.

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