Claudia Tajes: Uma flor de dama

Em abril, quando a nova novela da Glória Perez estrear, pode apostar que todo mundo vai saber quem é Silvero Pereira – até o presente momento, um ator cearense com muita experiência, e muitos prêmios, no teatro. A primeira peça dele que vi foi BR-Trans, um monólogo sobre o universo das travestis, transexuais e transformistas de diferentes Estados do Brasil a partir de histórias reais. Na peça ficamos sabendo que Silvero já fez um trabalho de ressocialização com presidiários de Porto Alegre, cidade em que morou. Também é fundador do Coletivo Artístico As Travestidas.

Silvero está agora em cartaz no Rio de Janeiro com Uma Flor de Dama, monólogo montado pela primeira vez em 2002. É baseado em Dama da Noite, conto do Caio Fernando Abreu. Sem outro recurso a não ser a luz, ele interpreta uma noite na vida de uma travesti. E não precisa de mais nada, e de mais ninguém, para encher o palco.

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Todo o trabalho de Silvero é feito em cima de pesquisa. Um dado que diz tudo: o Brasil é o país onde mais travestis são assassinadas por ano, algo entre 350 e 400. Para se ter uma ideia, no México, o segundo país mais violento, são 150 travestis assassinadas a cada ano. Silvero esteve em universidades, boates e lugares de prostituição para construir seus textos. Pode acreditar: por mais distante que se viva dessa realidade, ninguém sai do teatro indiferente.

Início do conto do Caio F. que inspira a peça: “Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar.”

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Chega de violência contra todos

Domingo passado, 29 de janeiro, foi o Dia da Visibilidade Trans. Não para comemorar qualquer coisa, mas para lembrar que muitas dessas pessoas são marginalizadas e humilhadas pela sociedade – muito embora paguem seus impostos, trabalhem e cuidem de suas famílias como qualquer outra cidadã ou cidadão brasileiro. Só para não ter confusão, transexual é quem não se identifica com o seu sexo original, meninos que se veem como meninas desde pequenos e vice-versa. A transexualidade é, antes de tudo, um conflito interno, de busca da identidade, e acaba levando à mudança de sexo. Já a travesti convive com as duas identidades, masculina e feminina. Se veste com roupas do outro sexo, faz uso de hormônios, mas continua com o mesmo órgão sexual com que nasceu. Desculpe o didatismo, mas tem gente que ainda se confunde com isso.

Só sei que o trabalho de Silvero joga na realidade confortável de quem está em paz com a própria sexualidade, seja ela hetero ou homo, questões que ficam doendo por dias e dias. Não é preciso ser trans para lutar contra a transfobia, diz uma campanha que está no ar. Só precisa dessa coisa tão pouco praticada pela gente, a tal humanidade.

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Historinha de praia. A menina pequena vinha pela areia sozinha, vendendo balas. Viu que eu estava olhando e tomou a minha direção no mesmo instante. Contou que tinha sete anos, que o pai e a mãe andavam vendendo de um lado para outro de Ipanema, que não tinha medo de nada porque era muito esperta. Ainda assim, enchi de conselhos: não sai da praia com ninguém, qualquer coisa já começa a gritar, essas coisas que se diz para os filhos. Enquanto a gente conversava, filou dois picolés e ficou descansando na sombra. Estava com o rosto meio vermelho, eu quis passar protetor solar. Resposta: “Não precisa, eu gosto de ser preta. É mais bonito”. Bem que ela disse que era esperta.

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