Claudia Tajes: Uma meia verdade

Foto: Pixabay
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O 12 de outubro já passou, mas o cartaz continua colado na vitrine de uma loja do shopping: meia, o melhor presente para o Dia da Criança.

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A loja vende meias infantis com estampas de bichinhos, outras femininas de todas as cores e pares masculinos bem comuns, em azul e marrom. Acho que estão mais para carpins. Alguém um dia deve ter dito que homem que é homem precisa usar meias azuis e marrons, porque elas existem em inúmeras variações desses tons no mercado. As brancas e pretas também, e as cinzas, e as verdes-musgo. Que estranha convenção condenou os pés dos avôs, pais, tios e demais adultos à discrição eterna?

Meia de homem: fugindo do lado escuro da força (Foto: João Marcelo Osório, especial)

Meia de homem: fugindo do lado escuro da força (Foto: João Marcelo Osório, especial)

A loja precisa vender, e o produto que ela vende são meias. Mas será que chamar meia de “o melhor presente para o Dia da Criança” não caracteriza um certo exagero?

Lembrei de um aniversário do meu irmão, talvez estivesse completando quatro anos de sua inocente vida – idade em que se quer de presente, ora, um brinquedo. Comprado ou reaproveitado, de loja ou de camelô, customizado ou herdado, mas brinquedo. E até melhor que seja barato, já que não vai durar muito. Pois naquele aniversário o meu irmão só ganhou cueca. A cada presente que ele abria, cheio de esperança, a revelação: mais uma cueca. Foi tão triste que, lá pelas tantas, o guri se recusou a receber os pacotinhos. Via o embrulho murcho, jamais o invólucro de uma bola ou de um carrinho, e fugia. Foram tantas cuecas que ele deve ter um estoque até hoje, o coitado.

O presente certo para as crianças? (Foto: Reprodução)

O presente certo para as crianças? (Foto: Reprodução)

Acho que ganhar uma meia no Dia da Criança tem o mesmo efeito de ganhar uma cueca de aniversário aos quatro anos. Antes que comece a patrulha, claro que eu sei: muitos, muitíssimos não têm condições sequer de dar uma meia para suas crianças. Esse aqui é só um exercício a favor de um mundo mais lúdico.

Criança sempre precisa de meia – para esquentar o pé, para o tênis não fazer bolha, para não dar chulé. Meia, sim, portanto. Mas que seja junto com um cacareco qualquer. Canetinhas, lápis, uma lupa, um pokémon desses que sai da máquina em troca de moeda, uma bola de plástico, um enfeite para o cabelo, uma bonequinha de pano, um bicho de pelúcia, um bombom, um negrinho feito em casa, uma fatia de bolo, um pirulito. Isso tudo para não falar de um livro ou de um gibi, novos ou usados. E um cachorro ou um gatinho? São tantos esperando pela adoção. Assim dá para contrabalançar. A meia, um pé (ah, a compulsão pelo trocadilho) na realidade. E o resto todo da criança, fantasia.

Vem aí o livro novo da Martha (Foto: Reprodução)

Vem aí o livro novo da Martha (Foto: Reprodução)

E vem aí mais um livro da Martha Medeiros – diretamente do mundo para a Feira. Um lugar na janela 2, da L&PM, traz novos e inspirados relatos de viagem da autora. É só passar na Alfândega, a praça, e entrar na fila. Lançamento no dia 5 de novembro.

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