Claudia Tajes: uma quase história natalina

Reciclagem de dezembro: aqui vai, bem resumido, o capítulo natalino do meu primeiro livro, Dez (quase) amores. Só porque estou escrevendo o Dez (quase) amores – Dez anos depois e é nisso que tenho pensando nesses dias. Se alguém quiser o capítulo inteiro, é só pedir aqui no e-mail que eu mando.

Quase Natal, shopping lotado. Depois de horas procurando mesa com duzentas sacolas em uma mão e um prato de macarrão frio e gorduroso na outra, consigo sentar ao lado de uma família brigando. Deve ser o espírito de Natal que me faz oferecer lugar para um pobre coitado na mesma situação. Luiz, é o nome dele, trabalha no shopping. A conversa é tão boa que combinamos outro almoço ali mesmo, no dia seguinte.

Quando o Bom Velhinho assusta | reprodução

Quando o Bom Velhinho assusta | reprodução

Luiz surge, atrasado, e eu preciso ir. Desconfio quando ele diz estar ocupado de noite.

– Se você é casado, abra o jogo.

– Não é isso, mas em dezembro trabalho todos os dias, 24 horas.

– Mas o que você faz? É o Papai Noel?

– Como é que você adivinhou?

Papai Noel

Nem todo Papai Noel é o que parece | Reprodução

Minha primeira reação é dizer adeus e não olhar para trás, mas Luiz me segue gritando: você me nega porque eu sou Papai Noel? Quanto mais ele berra que é Santa Klaus, mais a multidão persegue esse homem que corre como uma rena pelos corredores do shopping. Acredito no Papai Noel, mas não posso deixar de pensar nos aspectos práticos da coisa. Crediário, por exemplo. Se eu trabalhasse no SPC, jamais daria crédito a alguém de profissão Papai Noel, carreira que não é reconhecida depois dos seis, sete anos pela maioria das pessoas.

Decido observar Luiz em ação. É um choque reconhecer que ele fica muito bem de cetim vermelho. A barba não parece falsa, a roupa não tem enchimentos, Luiz é o Papai Noel mais lindo que já vi. Não consigo sair da frente dele. Papai Noel, isto é, Luiz, também está emocionado, mas uma das ajudantes com roupa de mulher-duende-piranha me tira dali e passa o próximo da fila. Antes de ir embora, ainda peço para o fotógrafo fazer a foto que nunca tive, eu no colo do Papai Noel. Decidido: quero namorar Luiz.

E assim se passa dezembro. No dia 24, Luiz trabalha muito, levando presentes e amor de festa em festa. Até que a atividade de Papai Noel é bem lucrativa. No dia 25, ele acorda introspectivo como um ator depois de sua consagração. Está quieto e emotivo, mas começa a fazer planos. E eu estou em todos eles.

– Vou precisar muito de você daqui para a frente. Hoje, eu me sinto vazio, mas tenho projetos. Em março agora, mas não divulgue para a imprensa, aceitei ser o Coelhinho da Páscoa do shopping.

Pijamão vermelho e botina no verão dá para encarar, mas rabo e orelha é demais.

Fim.

Aproveito para agradecer à Coordenação do Livro e Literatura, aos generosos jurados, à minha editora e aos queridos leitores pelo Prêmio Açorianos de Crônica, que ganhei na Noite do Livro de 28 de novembro. Parabéns para todos os outros vencedores. É assim que a gente se anima para seguir na peleia.

Meu presente de Natal: o Açorianos | Arquivo pessoal

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